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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

MEIA-NOITE EM PARIS, de Woody Allen - entre tempos, na mesma cidade!


  Paris em 2010, Paris em 1929, Paris em 1890! Sempre Paris, épocas diferentes, personagens e personalidades diferentes! Este filme de Woody Allen é verdadeiramente uma homenagem a Paris e ao universo de celebridades que lá viveu, conviveu e consolidou o seu génio.
  Gil Pender, escritor americano ainda inseguro das suas capacidades e do seu talento, encontra-se em Paris numa viagen prénupcial, com a noiva e os futuros sogros. Gil Pender é o elemento dissonante nesta família da alta burguesia americana, formal e preconceituosa, de ambições e horizontes limitados. 
  Eleito da hora mágica, a meia-noite, Gil Pender viaja no tempo e, nas noites dos anos 20 em Paris, conhece Cole Porter, Scott Fitzgerald, Hemingway, Dalí, Man Ray, Buñuel, Pablo Picasso, enfim, penetra numa «mina» onde se encontram os maiores artistas e escritores de todos os tempos. Gertrude Stein lê o manuscrito do romance que Pender anda a escrever, apresenta-lhe criticas e conselhos. Que sonho mágico, que orgia intelectual!
  Pela mão da encantadora Adriana, a modelo de Picasso, viaja até à Belle Époque (1890), conhece Toulouse Lautrec, as Folies Bergères,...
  Segundo os críticos  de cinema, a mensagem deste filme visa destruir o mito da Idade de Ouro. A Idade de Ouro será sempre aquela em que não vivemos e desejaríamos ter vivido! Mas essa não é melhor nem pior do que a nossa.
  Para mim, este filme representa a fusão dos tempos e Paris entre os tempos e a civilização e riqueza intelectual em que nós, felizmente, vivemos.
  E, para além disto, Gil Pender fala como Woody Allen e a jovem antiquária parisiense tem a cara da Mia Ferrow! Todos os filmes de Woody Allen estão neste filme!
  Estou a exagerar? Como a canção de Cole Porter, música de fundo do filme, « Let' fall in love...» por este filme de Woody Allen...



quinta-feira, 14 de julho de 2011

HADEWIJCH, de Bruno Dumont - os mistérios da obsessão crística




  Céline sobe, torturada, uma encosta verdejante próxima do convento onde vive e dirige-se, determinada, para um oratório onde se encontra a imagem de Cristo cruxificado e que se situa no cimo dessa encosta. Frente ao oratório, fala com Cristo, em sofrimento, como uma pessoa que vive desesperada.
 No convento, Céline não come, mortifica-se, de tal modo que a madre superiora, atenta e sensata, a obriga a abandonar o convento e a procurar Cristo na vida real.
  No entanto, na vida real, Céline pertence a uma família da alta burguesia parisiense, é filha de um político que pouca ou nenhuma atenção presta à família e de uma mãe deprimida e silenciosa. Uma família sem afetos e onde domina a solidão.
  Num bar de Paris, Céline conhece um grupo de jovens muçulmanos e entra num relacionamento com Yassine. Porém, Céline define a relação. Relações sexuais não terá com homem algum, a paixão de Céline é por Cristo e para ele se reserva.
  Yassine tem um irmão, Nassir, um teólogo muçulmano, militante da causa palestiniana. Entre Céline e Nassir estabelecem-se convergências, a religiosidade liga-os, compreendem-se nas paixões.
  Para Nassir, as pessoas de fé são «soldados de Deus que vivem para repor a justiça no mundo». Céline deixa-se convencer e presta-se ao sacrifício.
  Hadewijch era o nome de uma religiosa mística de Antuérpia que viveu no século XII e escreveu um «Livro de Visões». Hadewijch  é também o nome do convento onde Céline se recolhe para viver a sua fé. 
  Céline, a Hadewijch do século XXI, volta ao convento onde continua, desesperada, a perseguir a sua obsessão crística.

  Este filme coloca-nos interrogações sobre a fé vivida de forma fundamentalista, sobre as razões que a originam - a falta de afeto (Céline), a injustiça (Nassir).
  Em Hadewijch , a religião cristã e a islamita compreendem-se nos seus excessos, nas suas excentricidades - um paralelismo a não esquecer!

 

terça-feira, 5 de julho de 2011

VIAGEM A PORTUGAL, de Sérgio Tréfaut - uma burocracia acéfala

fotografia do dn.pt

  No aeroporto de Faro, no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, uma mulher ucraniana vê-se detida pela polícia por chegar a Portugal com um visto turístico e não um visto de residência ( vinha visitar o marido, um negro nigeriano que fizera o curso de medicina em Kiev).
  Inicialmente, a investigação parece legítima - poderia tratar-se de mais uma ucraniana seduzida por uma máfia qualquer para ser explorada como prostituta num qualquer bar de alterne como acontece com frequência. Mas o que se torna revoltante na história é que, verificado o engano e as razões honestas da viagem a Portugal da mulher ucraniana, as humilhações e o tratamento indigno para qualquer ser humano continuam por parte da mulher polícia chefe e dos «vendilhões» daquele «Templo» ( a ucraniana era médica, casada, de facto, com um médico nigeriano que era imigrante em Portugal).
  Maria de Medeiros desempenha magnificamente o papel da ucraniana e Isabel Ruth, a detestável mulher-polícia, tem também uma espantosa representação.
  Em cenários minimalistas e com meios visivelmente reduzidos, Sérgio Tréfaut conta e filma magistralmente esta história que se baseia em factos reais passados em 1998.
  A imagem desse Portugal é má e mostra uma burocracia acéfala, que não se ajusta a situações inesperadas nem entende razões humanas fora dos estereótipos legais e uniformes.
 Seria importante que os portugueses ( e não só!) vissem o filme e refletissem!


segunda-feira, 30 de maio de 2011

A ÁRVORE DA VIDA, de Terrence Malick - uma religiosidade conhecida, mas sempre esquecida




   Uma família texana dos anos 50. A morte de um filho de 19 anos, possivelmente na Guerra do Vietname. E a urgência desesperada de obter uma explicação, uma justificação.
  O Livro de Job, do Velho Testamento, Deus que tudo dá e tudo tira, a origem do Universo, da vida, o movimento incessante de todas as coisas, a transformação implacável, a família, o nascimento dos filhos, a renovação - o mistério da vida e a morte!
  Terrence Malick confronta-nos com a dor do crescimento, a «guerra» dos afetos no seio de uma família, a violência dos estereótipos da educação, o sofrimento que os seres humanos que se amam causam uns aos outros quer por pulsões primárias, quer por convenções sociais irrisórias.
  Para quê a rigidez, a dureza com que as pessoas se organizam em sociedades, nas famílias? A fragilidade de todas as coisas do Universo e da vida é irremediável!
  O Livro de Job lidera as interrogações do filme.E o século XXI tem mostrado a profundidade e a verdade dessas palavras. A humildade perante a vida e o Universo deve ser a atitude, o posicionamento do ser humano - essa é a religiosidade a que o filme nos convida e que acaba por nos impregnar.



quarta-feira, 9 de março de 2011

POESIA, de Lee Chang-dong - a educação, a doença, o suicídio e outras formas mais belas de poesia




  O filme POESIA, do sul-coreano Lee Chang-dong revela-nos uma sociedade em que a educação dos jovens, nas famílias e nas escolas, se tornou problemática e desencadeadora de violências e injustiças.
  A protagonista, a Srª Yang Mija, uma avó de 65 anos que tem a seu cargo a educação de um neto adolescente, vê-se incapaz de corrigir a rudeza desse jovem, a sua indiferença, a sua dissimulação, a sua insensibilidade.
  A permissividade e a excessiva proteção dada aos adolescentes origina a irresponsabilidade, o egoísmo, a ausência de compaixão e de compreensão dos outros.
  A poesia, a sensibilidade para ver e recriar o mundo, a beleza da realização pessoal contrastam com esse outro mundo feito de injustiças, violências e mortes.
  Lee Chang-dong faz-nos pensar que a globalização já disseminou os vícios sociais do ocidente, que, na Coreia do Sul como nos EUA, como nos países da Europa, os problemas sociais são muito semelhantes e nós todos, os seres humanos deste planeta, confrontamo-nos com as mesmas questões - do Alzheimer ao suicídio, da violência sexual à agressão familiar.

  Outros filmes de Lee Chang-dong para ver e rever: Green Fish (1996), Peppermint Candy (2000), Oasis (2002), Secret Sunshine (2007).



quarta-feira, 2 de março de 2011

DESPOJOS DE INVERNO, de Debra Granik - o Missouri, uma terra perigosa

(publico.pt)

  Este muito interessante filme, Despojos de inverno, de Debra Granik, desvenda-nos o Estado do Missouri (E.U.A.) como uma terra dominada e manchada pelo tráfico e pelas máfias da droga, a violência, o medo. A vida por esses sítios é difícil, cheia de perigos, uma desolação para qualquer ser humano digno.
  Ree, uma adolescente de 17 anos cujo pai caiu nas garras de uma máfia da droga e que está prestes a ficar sem casa, terras e qualquer meio de subsistência, enfrenta com coragem, determinação e inabalável sentido de responsabilidade essa máfia. Penetra nos lugares mais inquietantes, é menosprezada, agredida, ferida, mas sabe manter-se firme e dar uma lição de vida a quem a cerca. E também a nós espectadores!
  Tal como no filme Indomável, de Joel e Ethan Coen, este filme coloca uma adolescente, que assume defender a sua família, num mundo de homens, violentos, cristalizados em comportamentos machistas. E a adolescente arrisca enfrentar esse mundo, aconteça o que acontecer!





segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Os óscares 2011 - prémios atribuídos (sem comentários!)

(publico.pt)


Filme: O Discurso do Rei
Actor: Colin Firth, O Discurso do Rei
Actriz: Natalie Portman, Cisne Negro
Realizador: Tom Hooper, O Discurso do Rei
Fotografia: A Origem
Actriz Secundária: Melissa Leo, Último Round
Actor Secundário: Christian Bale, Último Round
Argumento adaptado: A Rede Social
Argumento original: O Discurso do Rei
Filme Estrangeiro: Num Mundo Melhor
Curta-Metragem de Animação: The Lost Thing
Longa-Metragem de Animação: Toy Story 3
Banda-Sonora original: A Rede Social
Canção Original: Randy Newman, Toy Story 3
Mistura de som: A Origem
Montagem de som: A Origem
Maquilhagem: O Lobisomem
Figurinos: Alice no País das Maravilhas
Documentário de curta-metragem: Strangers No More
Curta-metragem: God of Love
Documentário de longa-metragem: Inside Job - A Verdade da Crise
Efeitos visuais: A Origem
Cenografia: Alice no País das Maravilhas
Melhor Montagem: A Rede Social

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

INDOMÁVEL, de Joel e Ethan Coen - um indomável êxtase cinematográfico


(dn.pt)
  
  Que importa que Indomável, de Joel e Ethan Coen, seja, conjunturalmente, um western?
  Em algum western o protagonista é uma adolescente de 14 anos, determinada, destemida, loquaz, conhecedora de leis e de direitos, negociadora inteligente, que organiza a perseguição a um assassino profissional em território inóspito e aterrador? Qual é o western «a sério» em que, do início ao fim, todos os ingredientes do western cheiram a fantasia e são completamente secundários? Em que western há imagens de paisagens que nos arrepiam como se estivessemos num planeta ainda mais belo que o nosso? Em que western a protagonista adolescente vai buscar água ao rio (qual «cantiga de amigo») e vê o inimigo na outra margem, descuidado e simpático, a dar água ao seu cavalo? Onde é que o herói cai num poço de víboras? Em Indomável ou em Os salteadores da arca perdida?
  E que luta, que luta trava a adolescente, esperta e corajosa, para que os homens (trata-se de um mundo só de homens) a aceitem e considerem!
  Indomável é um filme que pugna pelo lugar justo das mulheres na sociedade, que mostra as suas maiores qualidades e capacidades.
  Joel e Ethan Coen misturam os tempos, invertem o papel tradicional das mulheres, fazem cinema na perfeição!
  Indomável é também um filme sobre a amizade que se conquista, que se ganha dia-a-dia, trabalhando em conjunto, lutando em conjunto. Que bela a cena do velho marshall levando ao colo, em cima do cavalo, Mattie Ross, mordida pela víbora fatal, na ânsia de a salvar!
  Qual é o melhor filme para vencer OS ÓSCARES? Este, INDOMÁVEL, de Joel e Ethan Coen.

(publico.pt)


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

UM ANO MAIS, de Mike Leigh - as inquietações da solidão

(publico.pt)


   Mike Leigh dá-nos a visão de uma Inglaterra feita de solidões, afetos frustrados, frieza no tratamento de questões humanas como a morte, onde apenas se salvam aqueles que têm  casamentos estáveis, fazem muitos jantarinhos e cultivam tomates e hortaliças em pequenas hortas. Parece-me uma visão bastante redutora.
  As personagens encontram-se, fundamentalmente, à volta da mesa, nos almoços e jantares que o núcleo familiar, ostensivamente feliz, organiza, convidando as amigas e amigos solitários que, ao longo das  conversas, vão apresentando os seus insucessos afectivos e bebendo freneticamente. O álcool é «o amigo sempre à mão» que leva os solitários a fazer figuras tristes e acabar alcoolizados.
  O suceder  das estações - primavera, verão, outono, inverno - é determinante para completar o real retrato das personagens (as alterações de comportamento - previsíveis - irão ajustar-se às circuntâncias e ao decorrer do tempo).
  A personagem Mary, secretária da terapeuta Gerri (a mulher de Tom - Tom and Gerri, estão a ver!) é excessivamente ridicularizada na sua falta de homem, na sua inabilidade para conduzir automóveis e nos seus azares constantes. A amizade entre a terapeuta e a secretária é apenas para entreter ou animar os almoços e jantares.
  A imagem da sociedade inglesa revela-se depressiva e deprimente para o espectador.

(publico.pt)

sábado, 29 de janeiro de 2011

A MINHA ALEGRIA (MY JOY), de Sergei Loznitsa - a beleza fotográfica

 

   Por onde andará a alegria neste filme? Na verdade, só por ironia este título pode ter sido dado a este filme.
  A minha alegria (My joy), de Sergei Loznitsa, mostra-nos uma Rússia, pós segunda grande guerra, miserável, corrupta, violenta, desprovida de sentimentos, de regras morais, de humanidade, onde os agentes da autoridade são tão desprezíveis e pervertidos como os mais arrepiantes vagabundos.
  O camionista Georgy viaja pelo país, observando, movimentando-se com cautela, procurando não alinhar na exploração humana que a cada paragem se lhe apresenta. Inútil! Aquele país dos sovietes está irremediavelmente perdido!
  Esta visão terrivelmente negativa de Loznitsa contrasta com a beleza da fotografia que nos oferece. O filme retém-se em muitas cenas, pondo em evidência um talento fotográfico assinalável.
  As minhas expectativas em relação a este filme eram, em boa verdade, muito diferentes da realidade com que me deparei.



quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O filme TULPAN, de Sergey Dvortsevoy - os afectos nas estepes do Cazaquistão

(publico.pt)

 
  Ver o filme Tulpan, de Sergey Dvortsevoy, confronta-nos com o dia-a-dia de uma família nómada nas estepes do Cazaquistão.
 Ali, onde os recursos se reduzem às ovelhas, a grandeza do ser humano apresenta-se despojada das vestes artificiais da civilização contemporânea.
 A família de Asa, o marinheiro que acabara de prestar serviço militar no exército russo, vive numa tenda nómada sem móveis (mesas, cadeiras, camas,...) sem fogões, frigoríficos, televisões, mas incute nos filhos regras de educação (não se brinca nem canta à mesa) e o relacionamento entre os seus membros caracteriza-se pelo máximo respeito moral e pela total preservação da dignidade pessoal (embora partilhem dia e noite o mesmo espaço). O afecto saudável, o carinho, a brincadeira, a alegria do canto, são os elos que unem a família e que a sustentam.
   O marinheiro Asa deseja Tulpan, a jovem casadoira que poderia dar-lhe uma família, o direito a um rebanho e ao trabalho de pastor.
  A estepe, as ovelhas, o difícil parto da ovelha praticado por Asa, o amor na sua expressão mais pura, a brincadeira do menino com o pau que faz de cavalo ou com o cágado que faz de automóvel, o canto infatigável da menina, os camelos, as ovelhas, o cão, a imensidão desértica da estepe, a poeira, o pastor, o veterinário - este filme faz-nos participar na acção, temos vontade de ajudar no parto da ovelha, enchemo-nos de poeira, rimos com as brincadeiras.
  Vermos este filme torna-nos mais saudáveis e humanos.



terça-feira, 23 de novembro de 2010

Os miúdos de «A Rede Social», de David Fincher

(publico.pt)
   

   O mundo de Harvard (Outubro de 2003) em que vivem os miúdos do filme  A Rede Social, de David Fincher, é um mundo em que, paralelamente à inteligência, à competência técnica, aos rasgos geniais dos estudantes, às relações afectivas próprias da juventude, grassam a competição, o oportunismo, a vingança, a traição, a ganância, inerentes à sociedade capitalista norte-americana e, no fundo, aos vícios da humanidade desde que os homens vivem em sociedade.
  Mark Zuckerberg, um jovem inteligente de Harvard, sente-se humilhado porque a namorada, mais madura que ele, desfez o namoro, saturada do seu egotismo. A humilhação gera a raiva e a vontade de vingança e daí nasce a criação do site que irá dar origem ao Facebook.
  Na génese deste site está a vingança, a traição, a deslealdade, a exibição pública do que deveria ser privado, o bullying. E também um comportamento excessivamente machista, o gozo de exibir as fotografias das jovens estudantes da Universidade e de espalhar as suas imagens.
  E é assim que um site, em princípio com características pornográficas (porque exibe para gozo e possível «venda»), se vai transformar num sítio que espalha informações pessoais para relações sociais.
 
   Extrapolando para além do filme e falando já do Facebook, como todas as coisas do mundo, sabe-se como começa, mas não se sabe como acaba. E, penso, o SHARE vai, de facto, transformar o mundo. As relações pessoais que por lá se desenvolvem, ou não, são um facto secundário. O que é deveras importante é que através do Facebook se espalham ou podem espalhar a uma velocidade alucinante informações que podem ser preciosas (política, direitos humanos, eventos, saberes, opiniões, etc., etc.).

  Como já foi dito: SHARE OU NÃO, EIS A QUESTÃO!


Nota: O filme baseia-se no livro Milionários Acidentais, de Ben Mezrich , sobre Zuckerberg e o Facebook.


terça-feira, 12 de outubro de 2010

Antestreias da 11ª Festa do Cinema Francês - enquanto a crise ferve no caldeirão!


    A 11ª Festa do Cinema Francês tem vindo a apresentar filmes (antestreias) de indiscutível qualidade. E se as distribuidoras portuguesas enchem as salas de cinema portuguesas de filmes americanos,  pelo lucro seguro que lhes darão, vale a pena ir às festas de cinema onde se podem ver muito bons filmes a que posteriormente poderá ser difícil o acesso.
  

  Sandrine Bonnaire é a madrinha da festa. Esteve presente no filme Joueuse, em que é a actriz principal, uma mulher a dias que se torna uma jogadora de xadrez, notável vencedora de torneios, ultrapassando as limitações da sua situação económica, social e familiar. Excelente filme e excelentes paisagens da Córsega. E esteve também no filme Elle s'appelle Sabine,  filme que realizou, sobre a situação em que vive a sua irmã Sabine, uma jovem autista.

    Outros filmes relevantes: Le Concert, de Radu Mihaileanu, uma comédia que penetra a sensibilidade dos mais empertigados, em que a Orquestra Bolshoi (formada por antigos músicos escorraçados da companhia por Brejnev por serem judeus ou por terem tomado posições em sua defesa, músicos que já não tocavam juntos havia trinta anos) vai a Paris, ao Théâtre du Chatelet, tocar Tchaikovsky e deslumbra os parisienses e a nós, obviamente.
    Le Refuge, de François Ozon, uma bela história sobre situações de droga, de maternidade pouco desejada e de reencontro de alguma paz interior.
    Des Hommes et des Dieux, de Xavier Beauvois, sobre a vivência de uma comunidade de oito monges franceses na Argélia, nos anos em que os fundamentalistas islâmicos cometiam as maiores atrocidades sobre aldeãos, estrangeiros, etc., e espalhavam o terror pelo país.

   E muitos mais filmes há ainda para ver!

   

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O DESASSOSSEGO da noite de 29 de Setembro

(publico.pt)


  Entre a estreia do Filme do Desassossego, de João Botelho, e o desassossego da conferência de imprensa do primeiro ministro e do ministro das finanças, passámos a noite de ontem.
  O Filme do Desassossego é um filme muito belo: as imagens de Lisboa (a Baixa, o Terreiro do Paço e o Cais das Colunas), a interpretação do actor Cláudio Silva e dos outros actores, a voz de Carminho, o texto de Pessoa, tudo no filme me agradou. No entanto, o texto  do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares (heterónimo de Fernando Pessoa), é um texto paradoxal. O narrador observa a vida de um lado contrário àquele  em que, normalmente, as pessoas se colocam e, portanto, o desassossego, a inquietação, o espanto, apodera-se do leitor. O espectador do filme sente também esse desassossego, essa estranheza.
  Por coincidência, também as notícias do governo causaram nos ouvintes grande inquietação e desassossego. Afinal, o governo seguiu as orientações dos agoirentos economistas  do PSD (Mira Amaral, João Salgueiro, Nogueira Leite, etc.) e anunciou cortes nos salários da Função Pública, aumentos nos descontos para a CGA, no IVA, etc. Ninguém falou na redução de despesas com chefias de empresas públicas, nos prémios, nos automóveis de luxo que lhes são atribuídos, etc., etc.  É a Função Pública que gera o ódio dos economistas e há que aplacar esses ódios.  A especulação capitalista está demasiado atenta às opiniões desses economistas de direita e o governo tem medo disso.
  E assim a noite de 29 de Setembro ficará lembrada como noite de grande desassossego, sobretudo por todos os paradoxos que estão à espreita.

 
 

domingo, 19 de setembro de 2010

«Jantar de idiotas» de Jay Roach ou «O jantar de palermas» de Francis Veber - qual o filme mais divertido?

(publico.pt)

   Se O jantar de palermas, de Francis Veber, era uma comédia sofisticada e intelectual, à maneira francesa, uma peça de teatro filmada num espaço reduzido e que termina sem que o anunciado jantar se realize, Jantar de idiotas, de Jay Roach,  é uma americanada divertida, que ultrapassa os condicionalismos do teatro e nos oferece o jantar propriamente dito e as peripécias desse jantar.
  O «esqueleto» da história é idêntico nos dois filmes - um grupo de pessoas reunem-se periodicamente num jantar, tendo cada um, por obrigatoriedade, de levar um palerma (ou um idiota) com dotes de estupidez suficientes para espantar os demais convidados.
  Ambos os filmes põem em causa o conceito de «idiota», socialmente construído para desvalorizar e ridicularizar aqueles  que se ajustam menos bem à norma social. E demonstram que a norma tem pés de vidro e que o jogo social é apenas um jogo de vaidades, de aparências.
  Eu diverti-me mais a ver o filme americano. Lamento o declínio do meu pendor intelectual.


domingo, 5 de setembro de 2010

«Cartas para Julieta», de Gary Winick - uma homenagem a Vanessa Redgrave e... ao amor


(publico.pt)

  Verona e a janela da suposta casa de Julieta apresentam-se, neste filme, como símbolos do amor, lugares de um culto - a religião do amor.  As paredes da casa da Julieta de Shakespeare enchem-se diariamente de centenas de cartas e de bilhetes de turistas que, em desesperos de amor, pedem a Julieta (a Santa Julieta) que faça eco dos seus problemas e lhes dê solução.
  Uma jornalista americana, em lua-de-mel por Verona, descobre, entre essas cartas, uma carta escrita cinquenta anos antes por uma turista inglesa que se apaixonara, durante a sua permanência em Itália, por um jovem, Lorenzo Belini. Tal como fazem as «secretárias de Julieta», umas senhoras que dedicam o seu tempo a responder às cartas das turistas, Sophie, a jornalista, decide responder a esta carta.
  Surpresa - na volta do correio, chega a Verona a velha senhora, Vanessa Redgrave, e a corrida para encontrar Lorenzo ( de entre as centenas de Lorenzos Belinis existentes na região) vai percorrer todo o filme.
  Cartas para Julieta é um hino ao poder do destino e ao amor. Shakespeariano enquanto tal!
  Veja-se o filme e saber-se-á se é trágico ou não. E se no filme reina o romance, quem pode negar que a vida seja um romance?


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Shirin nos rostos de 114 mulheres


 Shirin de Abbas Kiarostami é um filme diferente, um filme que obriga o espectador a trabalhar a imaginação.
  A «história de Khosrow e Shirin» passa num écran de cinema e, do público que assiste ao filme, a câmara foca apenas mulheres, 114 mulheres iranianas(113 actrizes iranianas e a francesa Juliette Binoche), e são as reacções vividas nos rostos dessas mulheres que nós, os espectadores de Shirin, temos que seguir e interpretar.  Do filme que essas mulheres vêem, o filme Shirin dá-nos apenas os sons - a história narrada, os diálogos das personagens, a música, os sons inerentes à acção. Nós ouvimos a história de Shirin e Khosrow, a história de uma princesa persa cristã  que viveu uma vida de solidão, de amor e de morte.
  Os rostos das mulheres iranianas penetram na história de Shirin, sofrem com ela, amam com ela, choram com ela a morte de Khosrow e choram a morte de Shirin. Choram  as suas próprias solidões, os seus próprios amores, as suas mortes. São as vidas dessas mulheres ianianas que nós seguimos com compaixão.

  Shirin é um filme que exige a paciência do espectador. Mas leva-nos a pensar nessas mulheres, a pensar no que será, realmente, as suas vidas.


segunda-feira, 3 de maio de 2010

Elia Suleiman e o filme autobiográfico «O tempo que resta»

(publico.pt)

  O Tempo que Resta, de Elia Suleiman, é um filme de homenagem à paciência irremediável dos palestinianos. Neste filme, são os habitantes de Nazaré que estão em foco. E a vida da família do próprio realizador do filme, Elia Suleiman.
 Os israelitas invadem a cidade de Nazaré, prendem, matam, torturam os seus habitantes. O pai de Elia é inicialmente um resistente, quer ajudar os seus conterrâneos, os feridos, os furagidos, mas a sua sorte acaba por não ser melhor que a dos outros. É preso, torturado. E a sua energia e revolta transformam-se em desânimo, inacção, aceitação da impossibilidade de mudança, de libertação.
  A família Suleiman está viva, vegeta, o filho Elia vai crescendo, a mulher cozinha, o senhor Suleiman pesca, mas sufoca-nos a indiferença e a apatia com que estas personagens enfrentam a situação que os subjuga. Os adultos envelhecem e a História não muda.
 Uma cena, várias vezes repetida, impressiona verdadeiramente. Suleiman pai e os seus amigos e, muitos anos depois, Suleiman filho e os seus amigos estão na esplanada de um café de bairro. Um jovem habitante da cidade desce, solitário, a rua. Algum tempo depois sobe, solitário, a rua. Cumprimenta. Por vezes, pede lume. E assim, sem objectivo, as vidas se prolongam. Donde vem o jovem nazareno? Para onde vai? Não interessa. Nada interessa.
  Aquela vida não interessa. E as pessoas envelhecem...
 
   Gostei de ver este filme. Fiquei com uma solidariedade maior em relação aos palestinianos, uma compreensão mais por dentro das suas vidas.
   Poderemos praticar o salto à vara para passar todos os muros da vergonha? E a repressão e os muros irão continuar para sempre?

segunda-feira, 15 de março de 2010

O clima de suspeição no filme «Estado de Guerra», de Kathryn Bigelow

(publico.pt)

  Há guerra, há trabalho, há missão! Os soldados americanos foram para o Iraque porque o governo do seu país assim o decidiu e têm que cumprir o serviço militar que lhes foi destinado. A quase totalidade desses soldados gostaria de não estar ali, tem medo, preferiria não enfrentar a morte, obviamente. São seres humanos e aquela não é a sua causa. Para alguns, no entanto, aquele trabalho torna-se uma dependência e a guerra funciona como uma droga.
  No entanto, no meu ponto de vista, a parte mais interessante deste filme de Kathryn Bigelow é o clima de suspeição que os soldados americanos enfrentam no Iraque. Todos os iraquianos se comportam como suspeitos, são vistos pelos soldados como suspeitos. Homens, mulheres, velhos, novos, crianças! Nas varandas, nas janelas, nos minaretes, nos mercados, nas ruas! As suas caras, a sua postura, os seus gestos ou ausência deles, tudo nos iraquianos é suspeito. E a tensão que advém dessa suspeição é insuportável para os soldados, quase insuportável para o expectador.
   O filme está extremamente bem feito. Eu não gosto de filmes de guerra. Gostei deste.
   E ficou-me a pergunta: Se ninguém queria lá os americanos a que propósito é que se foram lá meter? Não se deve meter o bedelho onde não se é chamado.
   Kathryn Bigelow ganhou o óscar de melhor realizadora e ainda bem. Para mim, o filme Um Homem Sério, dos irmãos Cohen, seria o vencedor. Nunca o Avatar! Mas não deve ter sido fácil filmar «Estado de Guerra».

   

sábado, 13 de março de 2010

Giríssimo, giríssimo!! O filme «Alice no País das Maravilhas», de Tim Burton


  Em primeiro lugar, «Alice no País das Maravilhas», de Tim Burton, tem que ser visto num lugar a meio da sala porque as legendas são em letra bastante pequena e em amarelo. Eu vi-me obrigada a ver o filme pela segunda vez, dado que cometi o erro de comprar bilhete longe do écran a primeira vez que me decidi a ver o filme.
  Mas valeu a pena comprar segundo bilhete, mesmo ao preço exagerado a que estão os bilhetes (pelo menos os óculos deveriam servir para várias sessões)!
  «As melhores pessoas são todas loucas», a frase que o pai de Alice usa no início do filme para a acalmar dos pesadelos e que Alice repete no país das maravilhas numa atitude de ternura para com o Chapeleiro, é uma frase que viabiliza toda a fantasia do filme, todo o non sense que ao longo do filme se carrega de sentido. Os expectadores deixam a sala cinema, depois de viverem quase duas horas num mundo inverosímil, convencidos que, se enfrentarem as situações mais difíceis da vida, ultrapassando o medo através  da crença no poder das palavras e dos pensamentos, poderão vencer, transformar o mundo e viver mais felizes.
   Esta Alice,  a Alice da conhecida história de Lewis Carroll, treze anos depois, quando involuntariamente ia ser pedida em casamento por um indigesto lorde inglês, uma Alice que não gostava de usar meias e achava o espartilho parecido com um bacalhau, vai descobrir no mundo das maravilhas, o seu valor, a realidade das pessoas e a importância de aceitar essa realidade.
  «Alice no País das Maravilhas» é um filme sobre a afirmação da mulher num mundo, economicamente, governado por homens. É um filme do século XXI.
  O «dia da Dita» transforma-se reamente num «bendito dia». «Abaixo a maldita corta-cabeças», abaixo todos os malditos corta-cabeças! Viva o poder da espada Vorpal (como o poder da espada do Rei Artur)!  «Sabes porque é que um corvo se parece com uma secretária?» - ninguém sabe e ainda menos aquele que, com o objectivo de intimidar os mais fracos, coloca a pergunta.