segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O mar abriu nova barra na ilha da Fuzeta

  Abriu uma nova barra na ilha da Fuzeta. Nova parece que não é bem assim. Esta barra já existiu há umas décadas atrás. E o próprio mar que a abriu encarregou-se de a fechar, bem como outras duas que já estiveram abertas (são as chamadas «barras divagantes») .
  Hoje, o espectáculo era para não esquecer. Via-se o mar, em directo da vila da Fuzeta! Ondas enormes, fabulosas, ali, a olho nu.(Claro que com uns binóculos seria ainda melhor.) E um promontório como nas pinturas. Está-se a ver onde é que os fuzetences passaram a tarde, mesmo com uma razoável ventania, ameaças de chuva e a ria de uma cor verde acastanhada. Especados frente à ria, com binóculos ou não, a olhar para a ilha. O bar da «praia dos tesos» estava cheio de gente. (Parece que qualquer dia qualquer «teso» pode ter uma fabulosa praia mesmo ao pé! E eu não me importo nada.)
  A natureza está a agir, a mudar a ilha e agora só é necessário que o Ministério da Marinha faça diligências para que os escombros das casas destruídas sejam removidos, bem como todos os objectos danosos que por lá andam. E que nunca mais deixem construir lá casas! Apenas estruturas de apoio em madeira, como snackbares e sanitários, que após o Verão possam ser desmontadas.
  Que danos toda esta destruição pode ter causado e vir ainda a causar na fauna marinha era um assunto que devia ser discutido publicamente. 






domingo, 14 de fevereiro de 2010

Dois poemas de amor do poeta árabe Ibn `Ammâr


À bem-amada

Minha alma quer-te
Ainda que haja nisso tortura
E sigo-te na ânsia da procura.
Que estranho ser difícil nossa ligação
Se os desejos ambos concordam!
Que quereria mais meu coração
Quando amargurado te buscou em vão
E meus olhos te viram e amaram?
Allah bem sabe que não há razão
De vir aqui senão para te encontrar
Como desejo que o vigia não esteja
Em nosso encontro
Para os teus lábios doces eu provar
Para folgar no jardim da tua face
Para beber do copo de langor
Que teus olhos oferece.

O servidor do vinho

Gostei dele quando serviu o vinho
No salão, era como uma lua ao redor de um planeta
Seu movimento derramava perfume
Que o seu próprio odor humedecia
Qual terno ramo tocado pelo vento leste.
Anda, vai levando a taça de vinho
Com dedos da açucena
E seus olhos de narciso faz girar.


 ( poemas retirados do livro Itinerários da poesia - poetas árabes no Gharb al-Ândalus, de Mostafa Zekri)

  Ibn`Ammâr nasceu em Silves e foi um ilustre poeta e governador dessa cidade. Morreu em 1084.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

«Tudo pode dar certo» (Woody Allen) quando se aceitam as diferenças!


  Woody Allen ressuscitou! A comédia Whatever works, mais uma vez passada em Manhattan, é a história de um físico, de renome, visto que se candidatou ao prémio Nobel, embora não ganhasse, hipocondríaco, divorciado, falhado até no suicídio, que vivia no seu bairro novaiorquino, criticando de forma cáustica tudo e todos, em mesas de bares e tabernas com alguns amigos igualmente frustrados.
  No entanto, os acasos, que têm um papel determinante no filme, vão esculpir uma nova vida  para este físico e para todos os que, assumindo as suas diferenças, e aceitando os outros como seres diferentes, entram na sua roda social.
   Uma jovem recém-chegada a Nova Yorque, sem casa nem dinheiro, pede-lhe para pernoitar em sua casa e o seu acto solidário, embora contrariado como seria de esperar de um misantropo inveterado, vai trazer-lhe os prazeres do amor e a ruptura com a solidão. A mãe da jovem, após uma separação por traição do marido com a melhor amiga (típica situação), entra-lhe pela porta dentro e também ela é acolhida na casa do físico. Ah, mas esta tem um futuro artístico à sua frente, para além de entrar numa relação amorosa com dois dos amigos de Boris (assim se chamava o físico)! E o pai da rapariga, depois de romper com a amiga da mulher, aparece também lá por casa e também ele é recolhido e acaba por encontrar um parceiro homossexual e assumir a sua verdadeira natureza. E tudo acaba num natal passado em comum em que todos estão felizes. Apesar de mais um divórcio do físico, mais um suicídio fracassado e mais um casamento casual e, talvez este!, com algum sucesso mais duradouro!
  Com tudo isto o filme consegue ser magnífico, os espectadores saiem bem dispostos e percebendo que a aceitação dos acasos e das diferenças podem ser essenciais para se ser feliz. 



terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Va de retro Almunia dos diabos!

(RTPNotícias)

  O sistema capitalista é, na verdade, de uma imensa fragilidade! Como é que uma afirmação de um indivíduo pode fazer subir o endividamento e o crédito de um país?
  É certo que este senhor Joaquín Almunia é membro da Comissão Europeia e responsável pelos assuntos económicos e monetários, mas um homem é um ser falível. Pode endoidecer, poder ser possuído pelo demónio, poder ser subornado e querer levar certos países à bancarrota, pode estar embriagado, pode estar drogado, pode ter uma oculta paranóia perversa, enfim, é um efémero e frágil ser humano.
 O sistema capitalista é que cada vez me assusta mais pela sua essência vertiginosa. Tanto pode subir aos píncaros celestiais como descer aos mais tenebrosos infernos. E é neste baloiçar circence que nós todos baloiçamos, mesmo os que raramente sobem e sempre descem.
 São necessários estes flagrantes delitos para termos uma conciência mais clara da situação periclitante em que nos meteram. Va de retro!
   
Economia - Posição de Almunia considerada "pouco prudente" - RTP Noticias

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A oposição em Portugal perdeu a tramontana

(publico.pt)


 Os partidos da oposição uniram-se na passada semana para votarem contra a lei das finanças regionais proposta no orçamento de estado. Em causa estava o financiamento ou não de cinquenta milhões de euros para a ilha da Madeira.
  ESPANTOSO! A que propósito é que o PCP e o BE se unem ao PSD e ao CDS para rejeitar esta lei. Só com um propósito obviamente - levar o governo a demitir-se!
 Eu, que não tenho votado PS, fiquei seriamente irritada com esta posição. Para quê novas eleições neste momento? Para afundar mais o país? Ou pensam que virá algum D. Sebastião para nos salvar? Parece que o mito sebastianista nunca mais abandona este povo...
 Não gostei nada de ver a atitude do BE, a votar a favor do Dr. Alberto João e ainda por cima a rirem-se, os senhores deputados, de forma absolutamente macacal!! E eu tenho votado no BE. Estou envergonhada!
  Claro que o Dr Alberto João aproveitou imediatamente para se armar em mentor dessa desastrada oposição e vir propor uma união para derrubar o governo! O Dr. Alberto João percebeu bem a cegueira do BE e do PCP e até fala com palavras doces (espero que se lembrem  do lobo mau!), admitindo as diferenças ideológicas e tudo...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

«A Cidade», de L.M.Cintra e a caricatura da política



  A peça A Cidade, em exibição no teatro S.Luís em Lisboa, resulta da combinação de excertos de oito comédias do poeta e dramaturgo grego Aristófanes que viveu em Atenas no século V a.c. - Acarnenses, Lisístratra, Paz, Pluto, Mulheres na Assembleia, Nuvens  , Cavaleiros e Aves.
  A palavra «política» deriva da palavra grega «polis», que significava «cidade» e, tendo em conta que as cidades gregas eram cidades-estados, com governos próprios, os conflitos sociais na «polis» correspondiam  à política de um estado, de um país.
  A peça é uma grande brincadeira em que o ridículo e o cómico advêm, em grande medida,  da inversão das regras sociais, isto é, as mulheres reunem-se e decidem mandar e ditar elas as regras - para acabar com a guerra, fazem grave ao sexo com os maridos, para acabar com as injustiças, vestem-se de homens, infiltram-se na assembleia e fazem uma nova constituição, em que, por exemplo,  as mulheres mais velhas e decrépitas têm prioridade na escolha dos homens.
  A brincadeira, sobretudo a que assenta no despudor sexual é, muitas vezes, excessiva e desnecessária, prejudicando a crítica pretendida.
  Noutras situações, o excesso resulta em pleno, como na cena em que o lavrador vai à cidade vender as duas filhas, as duas porquinhas, ou na educação dos jovens - o jovem obcecado pelos seus prazeres, o mp3 e os hifones, nada ouve ou aprende, tal como muitos alunos das nossas escolas.
  Vale a pena o contacto com Aristófanes e fica a vontade de ler as suas comédias agora traduzidas por M. Fátima Sousa e Silva em edição da Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Ainda há alunos como o Pedro Feijó!!!



  Na revista Única(Jornal Expresso), desta semana, vem um artigo de Christiana Martins intitulado «Juventude Inquieta». Interessou-me muito este artigo porque juventude interessada em organizar-se nas escolas, em intervir politicamente e com ideias novas para que os seres humanos sejam mais felizes já há muito tempo que não ouço falar dela.
 Pedro Feijó, o aluno que em 16 de Outubro de 2009, quando o Liceu Camões comemorou 100 anos fez este discurso que podem ver no video, é, hoje, presidente da Associação de Estudantes do Liceu Camões  e diz frases como estas:«Eu não sou o futuro. Somos presente e temos de educar todos para serem presente. Porque não fazemos nada para mudar amanhã, mas para ir mudando hoje.»; «Prefiro ser feliz e estar bem, até poria a vida política de lado se fosse preciso, porque a revolução que queremos fazer é a revolução do bem-estar.».
  Estas são ideias realistas de um jovem do mundo de hoje, que é altruísta, começando por querer ser feliz ele próprio.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

«Adiamento», de Álvaro de Campos

(Salvador Dalí)


Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
                                         Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...  



«Princesa prometida», por Aldina Duarte

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Jô Soares, na Casa Fernando Pessoa, não quer «acordar o gigante adormecido»



  Jô Soares esteve ontem na Casa Fernando Pessoa, não para dizer poesia de Pessoa, porque não queria «acordar o gigante adormecido» (não esteve para isso, obviamente), mas para falar com os jornalistas e anunciar o próximo espectáculo no Teatro Villaret.
  Falou das diferenças entreo português do Brasil e o português de Portugal (sabia que «pico no cu» significa injecção nas nádegas?) e sobretudo do enorme interesse do Brasil e de si próprio pelo poeta português Fernando Pessoa. Disse que o interesse por Pessoa é mágico e isso talvez tenha a ver com o ocultismo (eu já tinha suspeitado!).
 Para Jô, o verso ou frase mais importante de Pessoa é «malhas que o império tece» do poema O menino de sua mãe, porque considera uma frase do mundo, eterna, tudo são malhas que o império tece (depende do império!). 
 Não, não considera Drummond de Andrade melhor que F. Pessoa - eu também não!
  Sobre si próprio diz que tem uma maneira de ser muito existencial, as coisas, para ele, vão acontecendo - portanto, não tem nada de especial para ver ou fazer em Lisboa. (Gostei!)


Portugueses e brasileiros são "unidos por uma língua completamente diferente" - Sociedade - PUBLICO.PT

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

La Musica, de Marguerite Duras e os equívocos da vida conjugal


 La Musica, de Marguerite Duras, com a encenação de Solveig Nordlung, é uma peça de curta duração - uma hora apenas -, mas incisiva e profunda como é qualquer obra da autora.
 Num hotel em reconstrução (os espectadores interrogam-se inicialmente sobre o que andarão aqueles dois operários com fatos de macaco salpicados de tintas por ali a fazer, e uma caixa de ferramentas inusitada sobre a mesa da sala...), um homem e uma mulher, divorciados legalmente ao fim de dois anos de separação, falam sobre os equívocos que, enquanto estiveram casados, lhes provocaram sofrimento e os levaram à separação.
  Trata-se de uma muito interessante reflexão sobre a incomunicabilidade, sobre os silêncios,  sobre os direitos de cada uma das pessoas que formam o casal (ainda que esses direitos possam parecer estranhos e absurdos) e sobre a realidade banal que pode esconder-se por detrás das aparências mais extravagantes.
 E se nos espantamos perante uma separação que ocorre, mesmo numa relação em que o amor ainda está vivo, comprendemos também que, em cada um daqueles seres, existia o desejo de conhecer outras pessoas, de saber como seria o amor com outras pessoas. No fundo, são também as limitações de um casamento que estão aqui representadas.
  O hotel em reconstrução pode significar uma reconstrução das situações vividas pelo casal para melhor as entenderem. Não implica que a relação se restabeleça.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Terramoto no Haiti - o despertador que acordou o mundo

(publico.pt)

  111 mil mortos, dois milhões de pessoas sem tecto, quatrocentas mil pessoas realojadas em acampamentos fora de Port-au-Prince! Números incontáveis de uma tragédia súbita!
  E as imagens? Mulheres, homens, crianças que se amontoam em estádios, em ruas, em praças, aguardam sacos de água, rações de comida, lavam-se e defecam em promiscuidade.
  Espantamo-nos com a violência, com os grupos organizados que irrompem com catanas, bastões, roubam, espancam, ferem, imunes ao sangue, ao sofrimento.
  No cenário, as pedras, o pó, os escombros ladeiam e invadem as ruas.
  Quem sabia que o Haiti era, antes do terramoto, um país de gangues mafiosos, organizados em Port-au-Prince por bairros e por ruas, com líderes e chefes supremos? Que os habitantes da capital, para realizar as suas compras diárias, tinham que contratar seguranças para não serem, de imediato, roubados e esfaqueados? Que as máfias se aproveitavam da miséria do povo para dominarem os bairros mais pobres pela violência e pelo medo? Que as redes de tráfico infantil actuavam impunemente?
 Pensávamos que o Haiti era apenas um país de praias paradisíacas, de mar, de calor...
 O terramoto foi o toque do despertador, um despertador bem sonoro e perturbador.
 Indignamo-nos agora com o facto de as crianças serem roubadas dos hospitais e das ruas e com os roubos e a violência de que são vítimas os desgraçados sobreviventes do terramoto. 
 Mas enojamo-nos sobretudo com pastores evangélicos que aparecem com protectoras asas de anjo para levarem crianças sabe-se lá para que inferno e com as máfias americanas, russas, tailandesas, etc., etc., que imaginamos aterrando diariamente, agora, sobre o terramoto do Haiti.  



terça-feira, 19 de janeiro de 2010

«O Laço Branco», de Michael Haneke e o microcosmos da perversidade


  O filme O Laço Branco, de Michael Haneke, é, pela focalização exaustiva das situações perversas - as conhecidas e incansavelmente tratadas nos estudos de Psicologia, na literatura, no cinema, etc., como o incesto, a violência familiar, a brutalidade dos castigos paternos, os preconceitos de uma educação religiosa conservadora, o servilismo feminino, a inveja resultante das desigualdades sociais, o preconceito da virgindade, a cumplicidade cruel dos grupos de adolescentes, e outras menos conhecidas como o crime organizado dos alunos de uma escola, as artes de simulação de que as crianças são capazes, o medo que uma jovem líder feminina pode inspirar -, uma amostragem verdadeiramente exemplar dos vícios e da  maldade humana. 
   E como toda a história se passa numa pequena aldeia, podemos considerar este filme um autêntico microcosmos da perversidade. Como as cobaias numa gaiola, assim a população desta aldeia, de horizontes limitados e estrangulada pelo preconceito, se vai destruindo.
  Penso que Michael Haneke consegue realizar uma obra perfeita. E a beleza de algumas imagens, como os campos de searas ou as extensões de neve, é também um cenário perfeito.
   Felizmente, o filme apresenta algumas cenas de pureza e de dignidade humana, como o amor entre o professor e a jovem perceptora, o rapazinho que interroga a irmã sobre o tema da morte ou o outro rapazinho que salva o pardalito e posteriormente o oferece ao pai.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Dois poemas de Joan Margarit

Empilhando lenha

O homem costuma recolher do bosque
os troncos caídos com a tempestade.
Empilha-os nas traseiras da casa.
De cada um recorda
o que o fez cair e onde o recolheu.
Nas noites frias, a contemplar as chamas,
vai queimando oque resta doque ama.


O vendedor de rosas

Solitário e furtivo, o homem do ramo
anda por locais nocturnos à procura de casais.
Encontrei-o nas ruas ao pé da Rambla
com umas rosas sem cheiro a rosas
numa noite que não tem cheiro a noite.
E perdi-me pelas traseiras da vida.
Uma mulher na sombra que não és tu
roubou-te os olhos e chora. A cidade
é uma exacta e monstruosa cópia.
Como se o Cupido já estivesse velho,
passa cuspindo o vendedor de rosas.
Enquanto se afasta penso: ao teu amor
não lhe perdoes nada. Nem o seu final.

 No epílogo, Joan Margarit explica o título do livro - Casa da Misericórdia -, dizendo que a poesia  é uma espécie de Casa da Misericórdia, uma vez que, segundo ele, «um poema   talvez sirva para ajudar a suportar a dor e as ausências».