terça-feira, 10 de agosto de 2010

Livros de férias



  Poderá ser mais olhos que barriga, sobretudo para quem não lê depressa (divago muito enquanto leio) nem põe a leitura em primeiro lugar.
  Estes foram livros que fui adquirindo nos últimos meses e que só agora poderei ter mais tempo para ler. O livro de Mário de Carvalho, A arte de morrer longe, e o de Roberto Bolaño, Estrela Distante, estão a meio. Um bom homem é difícil de encontrar, de Flannery O'Connor, já está lido e Tudo o que sobe deve convergir, também de Flannery O´Connor, está a meio.
  Da Flannery O´Connor já posso falar. Não é por acaso que foi considerada a melhor escritora americana do século XX (New York Review of Books). É uma magnífica contadora de histórias. O leitor vai-se aproximando das personagens e das histórias irremediavelmente e, depois, encontrará sempre um final inesperado. Muitas vezes terrível como no sensacional conto «Um bom homem é difícil de encontrar». Gonçalo M. Tavares diz :«Apesar de ser muito duro e violento, é de uma violência que promove a lucidez.» E espanta e diverte também!
O tema dominante dos contos de Flannery O´Connor é a relação entre brancos e negros nos estados sulistas dos EUA. Mas não só. A América e os seus preconceitos e o ridículo da vida familiar da pequena e média burguesia surgem, nestes contos, sob um olhar incrível.
  
Talvez vá acrescentando este post à medida que as leituras se concretizem,
   
   

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

E agora, a Fuseta!


  Falar dos prazeres da Fuseta depois de ter estado no Capri a deliciar-me com gamba da costa, seguida de um gelado de maçã verde e baunilha servido pela D. Leonor na geladaria (!!) do Largo  e, ainda, depois das horas passadas a ver o pôr-do-sol no bar da Praia dos Tesos, ficará sempre aquém da realidade.





  Estou há mais de uma semana na Fuseta. Em Julho, foram banhos, apanha da conquilha, almoçaradas e jantaradas. Fica na história deste Verão o almoço em casa da Gabriela e do Fernando - o Fernando foi num pé ao Corvo (restaurante de peixe) buscar sardinhas e douradas, enquanto os convidados se sentavam à mesa, e voltou no outro pé com o peixe assado na grelha quente e pronto a ser devorado. Só na Fuseta!
  Esta semana, as coisas estão mais calmas. Há tempo para olhar a ria nos fins de tarde, seguir o movimento dos últimos barcos, ver as variações das cores da água (os azuis, os rosas), observar o trabalho das máquinas que estão a abrir a barra e as outras que acumulam areia extraída da ria para, a partir de Setembro, ser espalhada pelas zonas mais frágeis da ilha. Junto da ria o clima é fresco e agradável.



 

 O Largo da Fuseta, nesta quinzena, é insuportável - tem gente a mais, barulho a mais, calor a mais. Há horas em que, no Largo, quase se faz sauna. O clima no interior da vila sofreu alterações com a construção, após o 25 de Abril, de prédios de dimensões descomunais e de muitos andares na avenida maginal. A circulação do ar faz-se, na vila, com mais dificuldade que anteriormente. E, infelizmente, outros blocos monstruosos de apartamentos se estão construindo sobre a ria, ocultando a vista da vila a quem viaja de barco e a vista da ria a quem sempre morou naquela zona da Fuseta. E prejudicando seguramente o ecossistema da vila e da ria!   






   A ilha sem casas é espaço aberto e mais selvagem. A ilha voltou às suas origens. No entanto, muito ainda está por fazer - a limpeza da areia, por exemplo, foi um serviço que ficou inacabado. Todos os dias se encontra na areia cimento das casas destruídas, mosaicos, azulejos (partidos ou inteiros), vidros, bocados de tijolo ou mesmo tijolos inteiros, objectos os mais variados (luvas, sapatos, palmilhas, velas, bocados de estanho e até talheres ferrugentos já começaram a aparecer). Seria importante que todas as pessoas que vão à ilha recolhessem tudo o que pudessem e colocassem no lixo.




   As máquinas na praia, colocadas como tanques de guerra, lembram que a paz na ilha ainda está por completar e que este tempo é apenas um intervalo.  


quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Quem ainda não conhece OSGEMEOS, pintores de arte graffiti?


  A exposição «Pra quem mora lá, o céu é lá», de OSGEMEOS, vai estar no CCB até 19 de Setembro. Os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, conhecidos pelo nome OSGEMEOS, são artistas plásticos brasileiros que se têm dedicado à arte graffiti e as suas pinturas podem ver-se em muitas cidades do mundo. Em Lisboa, estão na Avenida Fontes Pereira de Melo, num prédio devoluto. Procurem que encontram!
  As fotografias deste post foram tiradas à exposição do CCB.  


Esta exposição encontra-se apenas em duas salas, recheadas de pinturas e de objectos(guitarras, radios antigos, casas,...), constituindo uma instalação que nos traz cenas da vida de bairros pobres do Brasil, cenas de amor, cenas da vida em família, cenas de divertimento, cenas de miséria,  instantes de quem mora lá. 


   Por vezes num estilo mais onírico, outras vezes mais naif (reparem nos pezinhos das crianças, metidos para dentro, e a forma como escondem as caras), OSGEMEOS conseguem mostrar-nos a timidez destas pessoas, a falta de saúde (o amarelo baço dos seus rostos), a falta de dinheiro (a magreza e os remendos nas roupas), mas também a humanidade que se mantém nos gestos de carinho e de afecto.


  As casas que se encontram no tecto, com os sapatos à porta, as galinhas, o bacio, mostram as intimidades do quotidiano e abrem as portas ao imaginário de quem as observa.
  Qual a dimensão da felicidade da gente que mora nestas casas?
  Mas o amor triunfa na imagem de cima!





  A exposição  vê-se em pouco tempo e fica-se com uma sensação da festa que a vida é, mesmo quando desfavorecida.


A «Rota dos Mouchões» acompanhada do bom vinho de Aveiras de Cima


  Partimos do Cais do Palácio da Rainha, próximo da Azambuja, no barco varino Vala Real, e durante três horas (entre as 10h e as 13h), navegámos Tejo acima, numa verdadeira paisagem de lazer, uma paisagem real, por entre os mouchões, uns recheados de garças brancas, outros de cavalos selvagens, outros de aldeias palafitas e silenciosos pescadores.
  Os Mouchões são ilhas que se encontram no meio do rio Tejo.Estas ilhas nascem com a acumulação  de sedimentos (areia, terra, poeira, lodos...)que são arrastados pelo vento e que vão aumentando com o tempo. O vento arrasta também sementes de várias ervas e arbustos que começam a desenvolver-se no Mouchão.Aqui podemos encontrar várias espécies de árvores como o salgueiro, o choupo, o eucalipto, ou o freixo. Nas margens do rio, aárvore mais utilizada é o salgueiro, porque  ajuda a prevenir a erosão das margens. («Rota dos Mouchões», Câmara Municipal da Azambuja, Pelouro do Turismo) 


   Estes homens, sábios do rio, guiaram-nos durante o trajecto, um manejando o leme e o outro explicando a paisagem e contando histórias do rio e das suas margens 



  Desembarcámos no cais de Valada do Ribatejo e daí partimos para Aveiras de Cima - Vila Musu do Vinho - em busca do prometido almoço típico numa adega.


   Almoçámos o tradicional «Bacalhau com torricado» ( o bacalhau coloca-se por cima deste pão torricado e come-se à  mão) acompanhado do vinho da adega da Caridosa. 



   Da parte da tarde, visitámos e provámos o vinho de três outras adegas, terminando com uma prova de vinhos conduzida por um experiente enólogo.

    Foi um passeio de fim de ano lectivo, para libertar stresses e iniciar o período de férias.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Shirin nos rostos de 114 mulheres


 Shirin de Abbas Kiarostami é um filme diferente, um filme que obriga o espectador a trabalhar a imaginação.
  A «história de Khosrow e Shirin» passa num écran de cinema e, do público que assiste ao filme, a câmara foca apenas mulheres, 114 mulheres iranianas(113 actrizes iranianas e a francesa Juliette Binoche), e são as reacções vividas nos rostos dessas mulheres que nós, os espectadores de Shirin, temos que seguir e interpretar.  Do filme que essas mulheres vêem, o filme Shirin dá-nos apenas os sons - a história narrada, os diálogos das personagens, a música, os sons inerentes à acção. Nós ouvimos a história de Shirin e Khosrow, a história de uma princesa persa cristã  que viveu uma vida de solidão, de amor e de morte.
  Os rostos das mulheres iranianas penetram na história de Shirin, sofrem com ela, amam com ela, choram com ela a morte de Khosrow e choram a morte de Shirin. Choram  as suas próprias solidões, os seus próprios amores, as suas mortes. São as vidas dessas mulheres ianianas que nós seguimos com compaixão.

  Shirin é um filme que exige a paciência do espectador. Mas leva-nos a pensar nessas mulheres, a pensar no que será, realmente, as suas vidas.


domingo, 11 de julho de 2010

Os espanhóis subornaram o polvo


  Quem é que consegue voltar a comer polvo à lagareiro, arroz de polvo, filetes de polvo, etc., etc., depois do papel desempenhado pelo polvo Paul neste mundial de futebol? Eu vou sentir-me uma traidora.
  Ficou demonstrado que os poderes sobrenaturais dos animais são uma realidade e que os polvos e as lulas, serão, no futuro, habitantes deste planeta com muito maiores capacidades que nós, os humanos, como alguns cientistas prevêem.
 A Espanha saiu beneficiada neste mundial com a adivinhação deste polvo. Quer se queira, quer não, estas coisas acabam por influenciar o comportamento.
  
     Ainda bem que ganhou a Espanha! No fim de contas, verifico que sou iberista e que se tiver que tomar partido, depois de Portugal, escolho os vizinhos.





sábado, 10 de julho de 2010

Muito convidativa a nova ilha da Fuseta



  Ainda não fui veranear à Ilha da Fuseta depois das obras. E ontem, como se vê no filme, foi hasteada a bandeira azul e o aspecto da praia parece espectacular.
  Começa uma nova época da vida desta ilha, o regresso à natureza primitiva, paisagem interrompida durante quase quarenta anos.
  Deve-se aprender a lição - a Natureza é magnífica, mas as pessoas têm que cumprir regras e embora gostem muito de estar em alguns lugares, não têm obrigatoriamente de assentar arraiais.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Entrementes, Mozart continuou no Festival ao Largo



   Quem tiver rabo para estar duas horas antes do espectáculo  assistirá, de facto, a óptimos espectáculos no Largo do São Carlos.
  Este  concerto teve início às 22 horas de terça-feira, dia 6 de Julho. Foi a Noite de Mozart com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, a soprano Ana Quintans e o barítono Luís Rodrigues. Ouviram-se excertos das óperas As Bodas de Fígaro, Cosí fan tutte, Don Giovanni e A Flauta Mágica.
  A música que se ouve neste largo tem um encanto adicional - o som das gaivotas de Lisboa, espantadas  com os concertos ou interessadas neles, e o som dos carro eléctricos que passam todos catitas na rua do Café do Chiado. Tivemos, assim, Mozart com cobertura da música concreta lisboeta, como os gelados da Haagen Dazs.
  E depois, pode sempre subir-se a uma esplanada de um Hotel da zona e encher os espíritos de Tejo e da sua esplêndida paisagem nocturna, ou beber um copo num bar do Bairro Alto e sentir algumas misérias dos humanos que por lá circulam.




terça-feira, 6 de julho de 2010

Caiu a máscara aos antipatriotas deste país


  Os Belmiros, Ricardos Salgados, accionistas da PT e banqueiros deste país, mostraram, nos últimos tempos, que o que lhes interessa de facto é encher os seus próprios bolsos e não o progresso e a independência de Portugal.
  É óbvio para qualquer leigo que se os espanhóis da Telefónica querem comprar a Vivo  do Brasil é porque sabem que disso virão a tirar lucros colossais e que passarão a perna à PT, a maior empresa portuguesa com projecção internacional. A PT é dos accionistas ricos, isso toda a gente sabe, mas estes senhores deveriam ter a dignidade de perceber qual deveria ser o seu papel no país neste momento e, se já beneficiaram de todos os dividendos que o sistema capitalista lhes proporcionou, porque, possivelmente, eles e os seus ancestrais foram muito espertinhos e tiveram muita sorte, agora deveriam mostrar uma visão mais alargada e mais projectada no futuro.  Pedir-lhes  que sejam patriotas é uma ingenuidade, mas não são eles que muitas vezes vêm com discursos de benfeitores  e de garantia da riqueza nacional?
   Caiu-lhes a máscara - é só nisso que penso quando ouço as suas conferências de imprensa e desculpas de estrategas bancários. 
  José Socrates fez muito bem em usar a Golden Share e faz ainda melhor em estar a lutar palas posições que assumiu. E o PCP e o BE deveriam ter sido mais rápidos em mostrar a sua posição e as suas vozes deveriam ser mais sonoras. O PSD mostrou a sua verdadeira face - a defesa do capital, mesmo quando está em causa a soberania económica do país. Até o CDS percebeu!
  Já fiz, neste blogue, críticas a este governo e a vários dos seus membros, incluindo o promeiro ministro. Neste momento, acho que José Sócrates está a mostrar que defende Portugal e os interesses do país e louvo a sua determinação.


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Homenagem a Pina Bausch e Festival ao Largo


  Pina Bausch foi homenageada no Teatro São Luís no dia 30 de Junho, um ano depois do seu falecimento. Foi no Teatro São Luís que Pina Bausch dançou pela última vez em palco, em 2008, na peça Café Muller. Agora, João Salaviza  realizou a curta-metragem Hotel Muller e foi este filme que foi apresentado e estreado na homenagem à bailarina e coreógrafa.
  O filme de Salaviza  realça os sons do quotidiano num pequeno e provinciano hotel - as máquinas de lavar roupa, a limpeza do chão, os lixos, a movimentação dos hóspedes, as motorizadas em que se deslocam os clientes, etc., etc. E são estes sons que se transformam numa partitura musical e lembram os bailados de Pina Bausch.
  No debate que teve lugar no Jardim de Inverno, achei sobretudo interessante a análise que a bailarina Luísa Taveira fez do chão nas peças de Pina Bausch - o chão do palco de dança, que procurava imitar a realidade, ser o chão real que as pessoas pisam e a que as sapatilhas dos bailarinos tinham que aderir.

 E à saída do São Luís, terminava uma noite de ópera no Largo do São Carlos com a extraordinária Orquestra do Algarve.


  Não percam os espectáculos do Festival Ao Largo que irá decorrer até dia 26 de Julho frente ao Teatro São Carlos!!


segunda-feira, 28 de junho de 2010

Uma maratona ciclópica na Casa Fernando Pessoa



  Tratou-se, de facto, de uma maratona ciclópica a que teve lugar na sexta-feira passada (dia 25 de Junho) na Casa Fernando Pessoa. Durante 15 horas, leu-se, integralmente, a obra  O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago.
  A leitura começou por volta do meio-dia, após a chegada de Pilar del Rio, apenas com uma curta interrupção de António Costa para anunciar o lugar onde irão ser colocadas as cinzas de José Saramago (no jardim defronte da Casa dos Bicos, em Lisboa) e o epitáfio que irá ficar escrito na pedra de Pêro Pinheiro que cobrirá as cinzas (« Não subiu para as estrelas, se à terra pertencia » - as últimas palavras de O Memorial do Convento).



 Como um fio que não cessa de enrolar enquanto o novelo não termina, a leitura desenrolou-se sem parar, feita por escritores  e por todos aqueles que se inscreveram para participar e ler. Por vezes com a sala cheia, outras vezes com público mais reduzido, a cadeia de leitura processou-se, ignorando horas de refeições, transmissão de jogos de futebol (Portugal/Brasil decorreu durante a tarde) e muitos cansaços ( Inês Pedrosa e Pilar del Rio não deviam estar pouco cansadas).
  Foi uma homenagem a José Saramago de uma generosidade espantosa!
  Desde «Aqui o mar acaba e a terra principia.» até «Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera.», leram-se 415 páginas, de seguida, num bom ritmo, de forma mais ou menos expressiva, mas sempre sem perder o fôlego.



    Sem conversas, só leitura! Parabéns à extraordinária organização da Casa Fernando Pessoa!

A morte de Saramago em alguns títulos de jornais

Saramago não queria ficar no Panteão

Vestido vermelho com versos de Saramago na despedida

Não há palavras, Saramago levou-as

O homem que veio do povo e lhe foi fiel

Três paixões e as outras mulheres de um escritor

Da infância pobre ao mestre inesquecível

Um escritor do mundo

E assim vai Saramago para o céu

Espanhóis foram mais atentos ao funeral

O povo despediu-se do seu escritor


segunda-feira, 21 de junho de 2010

José Saramago - a morte sem intermitências


É assim a vida, vai dando com uma mão até que chega o dia em que tira tudo com a outra.



As mortes de cada um são mortes por assim dizer de vida limitada, subalternas, morrem com aquele a quem mataram, mas acima delas haverá outra morte, aquela que se ocupa do conjunto dos seres humanos desde o alvorecer da espécie.



Somos testemunhas fidedignas de que a morte é um esqueleto embrulhado num lençol, mora numa sala fria em companhia de uma velha e ferrugenta gadanha que não responde a perguntas, rodeada de paredes caiadas ao longo das quais se arrumam, entre teias de aranha, umas quantas dúzias de ficheiros com grandes gavetões recheados de verbetes.



A morte apareceu à luz do dia numa rua estreita, com muros de um lado e do outro, já quase fora da cidade.

A morte nunca dorme.

(Citações do livro As Intermitências da Morte , de José Saramago)



Ontem, pelas 12h 30m, saiu a urna de José Saramago dos Paços do Concelho em Lisboa para o cemitério do Alto de S. João. As pessoas, na praça, gritavam - Obrigado, José Saramago! Eu estava entre elas.

sábado, 22 de maio de 2010

Na «semana dos milagres», a galinha não deu ovos de ouro


    Na semana de 13 de Maio, alguns milagres foram anunciados - a ausência de chuva na tarde de terça-feira (11 de Maio) em Lisboa e o afastamento da nuvem de cinzas vulcânicas do espaço aéreo português - e, por graça de sua santidade, os milagres concretizaram-se.
   O primeiro ministro de Portugal chegou a anunciar, na noite desse mesmo dia, que o aumento das exportações, no primeiro trimestre deste ano, tinha sido o maior desde há não sei quantos anos (nem quero saber) e que o crescimento económico do país era também qualquer coisa espantosa. Milagre! O Papa fizera mais este milagre!
  Mas no dia 13 é que foi... Enquanto, em Fátima, os fiéis, os videntes e outros peregrinos se deliciavam com Papas doces, Papas móveis, Papas ópios, etc. , em Lisboa, as galinhas poedeiras,  em Concílio Financeiro, depois de dançarem o tango e outros preliminares, puseram-se no choco e os ovos começaram a sair.
  Ovos de austeridade económica (afinal o país estava à beira da ruptura): aumento do Iva, aumento do Irs, agravamento das taxas de Irc, nova taxa sobre crédito ao consumo, corte nas transferências para as empresas públicas e autarquias, diminuição de 5% dos salários de políticos e gestores, etc., etc. Que mal que cheiravam os ovos! Afinal os ovos não eram de ouro e ainda por cima estavam podres!
  E como se tal não bastasse, os ovos eram lançados e partiam-se todos. As galinhas estavam sempre a pôr outros ovos: o aumento de Irs era de 1% para salários até 2350 euros e de 1,5% acima deste valor. Não, afinal não era. Era de 1% para salários até  1350. Não,  até 1250 euros. Era para ser aplicado a partir de Julho. Não, era para ter efeitos retroctivos a partir de Janeiro. Não, era para ser a partir de Junho e apanhar já o subsídio de férias. Afinal talvez fosse a partir de ontem (dia 23 de Maio e dia da moção de censura ao governo)! Mas não! O primeiro ministro diz que em Junho é que é!
  Que galinhas mais trapalhonas! Nem sequer conseguiram pôr ovos de ouro! Pelo menos desta vez! Quem sabe para a próxima!


 

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Elia Suleiman e o filme autobiográfico «O tempo que resta»

(publico.pt)

  O Tempo que Resta, de Elia Suleiman, é um filme de homenagem à paciência irremediável dos palestinianos. Neste filme, são os habitantes de Nazaré que estão em foco. E a vida da família do próprio realizador do filme, Elia Suleiman.
 Os israelitas invadem a cidade de Nazaré, prendem, matam, torturam os seus habitantes. O pai de Elia é inicialmente um resistente, quer ajudar os seus conterrâneos, os feridos, os furagidos, mas a sua sorte acaba por não ser melhor que a dos outros. É preso, torturado. E a sua energia e revolta transformam-se em desânimo, inacção, aceitação da impossibilidade de mudança, de libertação.
  A família Suleiman está viva, vegeta, o filho Elia vai crescendo, a mulher cozinha, o senhor Suleiman pesca, mas sufoca-nos a indiferença e a apatia com que estas personagens enfrentam a situação que os subjuga. Os adultos envelhecem e a História não muda.
 Uma cena, várias vezes repetida, impressiona verdadeiramente. Suleiman pai e os seus amigos e, muitos anos depois, Suleiman filho e os seus amigos estão na esplanada de um café de bairro. Um jovem habitante da cidade desce, solitário, a rua. Algum tempo depois sobe, solitário, a rua. Cumprimenta. Por vezes, pede lume. E assim, sem objectivo, as vidas se prolongam. Donde vem o jovem nazareno? Para onde vai? Não interessa. Nada interessa.
  Aquela vida não interessa. E as pessoas envelhecem...
 
   Gostei de ver este filme. Fiquei com uma solidariedade maior em relação aos palestinianos, uma compreensão mais por dentro das suas vidas.
   Poderemos praticar o salto à vara para passar todos os muros da vergonha? E a repressão e os muros irão continuar para sempre?