terça-feira, 12 de outubro de 2010

Antestreias da 11ª Festa do Cinema Francês - enquanto a crise ferve no caldeirão!


    A 11ª Festa do Cinema Francês tem vindo a apresentar filmes (antestreias) de indiscutível qualidade. E se as distribuidoras portuguesas enchem as salas de cinema portuguesas de filmes americanos,  pelo lucro seguro que lhes darão, vale a pena ir às festas de cinema onde se podem ver muito bons filmes a que posteriormente poderá ser difícil o acesso.
  

  Sandrine Bonnaire é a madrinha da festa. Esteve presente no filme Joueuse, em que é a actriz principal, uma mulher a dias que se torna uma jogadora de xadrez, notável vencedora de torneios, ultrapassando as limitações da sua situação económica, social e familiar. Excelente filme e excelentes paisagens da Córsega. E esteve também no filme Elle s'appelle Sabine,  filme que realizou, sobre a situação em que vive a sua irmã Sabine, uma jovem autista.

    Outros filmes relevantes: Le Concert, de Radu Mihaileanu, uma comédia que penetra a sensibilidade dos mais empertigados, em que a Orquestra Bolshoi (formada por antigos músicos escorraçados da companhia por Brejnev por serem judeus ou por terem tomado posições em sua defesa, músicos que já não tocavam juntos havia trinta anos) vai a Paris, ao Théâtre du Chatelet, tocar Tchaikovsky e deslumbra os parisienses e a nós, obviamente.
    Le Refuge, de François Ozon, uma bela história sobre situações de droga, de maternidade pouco desejada e de reencontro de alguma paz interior.
    Des Hommes et des Dieux, de Xavier Beauvois, sobre a vivência de uma comunidade de oito monges franceses na Argélia, nos anos em que os fundamentalistas islâmicos cometiam as maiores atrocidades sobre aldeãos, estrangeiros, etc., e espalhavam o terror pelo país.

   E muitos mais filmes há ainda para ver!

   

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

«Há um cão vadio...» de Almada Negreiros

  Ontem, na Praça do Município, em Lisboa, a Républica, personagem da encenação teatral do grupo O Bando, declamou uma montagem de textos de autores portugueses.
  De Almada Negreiros, o texto seleccionado foi este:

  

  Não achas, Mãe? Por exemplo. Há um cão vadio, sujo e com fome, cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas.
 Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si - não saber cuidar de si é ser cão.
  Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono de mim, para os que me vissem dissessem: Que bem que aquele soube cuidar de si!

  Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: Olha uma árvore! quando há uma árvore. Assim, inteiro; sem adjectivos, só de uma peça: Um homem!


            De A invenção do Dia Claro, 1921



segunda-feira, 4 de outubro de 2010

100 anos de República - é para comemorar!

  

   Amanhã  comemora-se os 100 anos da proclamação da República em Portugal. António Ventura publicou um livro de postais da época alusivos à Primeira República. Estas fotografias são de alguns desses postais.

  

   Este enterro da realeza aliviou-nos de muita desigualdade e de muito preconceito.


 
  No primeiro postal, França Borges e Afonso Costa vendem o elixir republicano, publicitando simultaneamente o jornal O Mundo, cujo director era França Borges. No postal ao lado, estão os deputados republicanos eleitos em 1910: Afonso Costa, Bernardino Machado, António José d'Almeida, João de Meneses, Teófilo Braga, Alexandre Braga, Cândido dos Reis, A. Luís Gomes, Miguel Bombarda, Brito Camacho, Feio Terenas, Fernandes Costa, Aurélio Ferreira e Alfredo Magalhães.


    O primeiro postal é uma homenagem à Marinha de Guerra, que apoiou os republicanos, e o segundo homenageia os países que reconheceram a República Portuguesa: Brasil, Estados Unidos, Argentina e Suíça.

   

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O DESASSOSSEGO da noite de 29 de Setembro

(publico.pt)


  Entre a estreia do Filme do Desassossego, de João Botelho, e o desassossego da conferência de imprensa do primeiro ministro e do ministro das finanças, passámos a noite de ontem.
  O Filme do Desassossego é um filme muito belo: as imagens de Lisboa (a Baixa, o Terreiro do Paço e o Cais das Colunas), a interpretação do actor Cláudio Silva e dos outros actores, a voz de Carminho, o texto de Pessoa, tudo no filme me agradou. No entanto, o texto  do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares (heterónimo de Fernando Pessoa), é um texto paradoxal. O narrador observa a vida de um lado contrário àquele  em que, normalmente, as pessoas se colocam e, portanto, o desassossego, a inquietação, o espanto, apodera-se do leitor. O espectador do filme sente também esse desassossego, essa estranheza.
  Por coincidência, também as notícias do governo causaram nos ouvintes grande inquietação e desassossego. Afinal, o governo seguiu as orientações dos agoirentos economistas  do PSD (Mira Amaral, João Salgueiro, Nogueira Leite, etc.) e anunciou cortes nos salários da Função Pública, aumentos nos descontos para a CGA, no IVA, etc. Ninguém falou na redução de despesas com chefias de empresas públicas, nos prémios, nos automóveis de luxo que lhes são atribuídos, etc., etc.  É a Função Pública que gera o ódio dos economistas e há que aplacar esses ódios.  A especulação capitalista está demasiado atenta às opiniões desses economistas de direita e o governo tem medo disso.
  E assim a noite de 29 de Setembro ficará lembrada como noite de grande desassossego, sobretudo por todos os paradoxos que estão à espreita.

 
 

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

As vozes proféticas da desgraça

     Nos meses de Verão, estivemos todos a banhos, nós e eles, «naquele engano de alma ledo e cego» que os interesses políticos não deixam durar muito. Não se falou em juros da dívida pública nem em orçamento de 2011, apenas os macabros incidentes da herança de Tomé Feteira agitaram as agências noticiosas.
  Após o 9 de Setembro, tudo começou! Os profetas da desgraça começaram sucessivamente a subir às montanhas, anunciando as grandes catástrofes que iriam abater-se sobre este país - as subidas de impostos, os cortes nos vencimentos dos funcionários públicos e no subsídio de Natal, o monstro do FMI escurecendo os ares sobre as nossas cabeças, os segredos da economia portuguesa guardados a sete chaves pelo governo, ...
  Os economistas mediáticos -  João Duque, Medina Carreira, Helena Garrido, Ernâni Lopes, etc., etc. -  perfilaram-se diariamente nos vários canais de televisão, criando o ambiente necessário ao descrédito  da capacidade dos governantes, abrindo caminho para a confusão política, para a subida dos juros da tal dívida pública, para a machada fatal nos salários da função pública,  sempre tão odiada por estes famigerados economistas que não são funcionários públicos obviamente.
  E qual é o deus que estes profetas querem anunciar como salvador da nação?
  Parece claro para toda a gente que se trata de Pedro Passos Coelho e do seu partido.
  Que desgraça anunciada por aí vem!!

domingo, 19 de setembro de 2010

«Jantar de idiotas» de Jay Roach ou «O jantar de palermas» de Francis Veber - qual o filme mais divertido?

(publico.pt)

   Se O jantar de palermas, de Francis Veber, era uma comédia sofisticada e intelectual, à maneira francesa, uma peça de teatro filmada num espaço reduzido e que termina sem que o anunciado jantar se realize, Jantar de idiotas, de Jay Roach,  é uma americanada divertida, que ultrapassa os condicionalismos do teatro e nos oferece o jantar propriamente dito e as peripécias desse jantar.
  O «esqueleto» da história é idêntico nos dois filmes - um grupo de pessoas reunem-se periodicamente num jantar, tendo cada um, por obrigatoriedade, de levar um palerma (ou um idiota) com dotes de estupidez suficientes para espantar os demais convidados.
  Ambos os filmes põem em causa o conceito de «idiota», socialmente construído para desvalorizar e ridicularizar aqueles  que se ajustam menos bem à norma social. E demonstram que a norma tem pés de vidro e que o jogo social é apenas um jogo de vaidades, de aparências.
  Eu diverti-me mais a ver o filme americano. Lamento o declínio do meu pendor intelectual.


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Marina Cedro esteve hoje na Casa Fernando Pessoa




  Marina Cedro esteve hoje com Casimiro de Brito, na Casa Fernando Pessoa, para a apresentação do livro  de ambos - Amo Agora - (poesia erótica) da Editora 4Águas de Faro.
  Muito interessante esta apresentação /recital com a argentina Marina Cedro ao piano, quer dizendo os seus poemas quer interpretando melodias diversas, tangos incluídos.
 

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Manuel Alegre - o rosto do progresso e da mudança

 
  Apoiantes convictos e entusiasmados receberam Manuel Alegre no CCB no dia 11 de Setembro. Este simpático comício foi considerado pelos media a sua rentrée política.
  Após as intervenções dos mandatários, Manuel Alegre fez um discurso claro e incisivo sobre as suas propostas de actuação como Presidente da República: uma visão cultural e política, aberta e progressista, um posicionamento de clareza e firmeza pela defesa da saúde pública, da escola pública e da segurança social pública.



  É urgente concentrar esforços em volta da candidatura de Manuel Alegre. É urgente dar vida e honestidade a este país. É urgente repudiar os sonsos, os ambíguos, os tremelicantes das palavras e das intenções!

  

domingo, 5 de setembro de 2010

«Cartas para Julieta», de Gary Winick - uma homenagem a Vanessa Redgrave e... ao amor


(publico.pt)

  Verona e a janela da suposta casa de Julieta apresentam-se, neste filme, como símbolos do amor, lugares de um culto - a religião do amor.  As paredes da casa da Julieta de Shakespeare enchem-se diariamente de centenas de cartas e de bilhetes de turistas que, em desesperos de amor, pedem a Julieta (a Santa Julieta) que faça eco dos seus problemas e lhes dê solução.
  Uma jornalista americana, em lua-de-mel por Verona, descobre, entre essas cartas, uma carta escrita cinquenta anos antes por uma turista inglesa que se apaixonara, durante a sua permanência em Itália, por um jovem, Lorenzo Belini. Tal como fazem as «secretárias de Julieta», umas senhoras que dedicam o seu tempo a responder às cartas das turistas, Sophie, a jornalista, decide responder a esta carta.
  Surpresa - na volta do correio, chega a Verona a velha senhora, Vanessa Redgrave, e a corrida para encontrar Lorenzo ( de entre as centenas de Lorenzos Belinis existentes na região) vai percorrer todo o filme.
  Cartas para Julieta é um hino ao poder do destino e ao amor. Shakespeariano enquanto tal!
  Veja-se o filme e saber-se-á se é trágico ou não. E se no filme reina o romance, quem pode negar que a vida seja um romance?


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Que «terror das trêvas» foi esta conferência de imprensa dada por um condenado no processo Casa Pia?

  Como é possível, neste país, que um condenado a sete anos de prisão no processo Casa Pia, dê, a seguir ao julgamento em que foi condenado, uma conferência de imprensa  transmitida em directo, durante uma hora, na RTPN, na Sic, na Sic Notícias, na TVI e na TVI24? Isto é uma República das Bananas? Há por aqui cartéis da droga que comandam esta coisa toda? 
  Que os condenados e os seus advogados façam os recursos que desejarem é lá com eles e com a justiça! Agora que venham fazer propaganda dos seus próprios interesses e denegrir a justiça nacional, fazendo uso dos dinheiros dos contribuintes deste país, é demais!!
 Quem pensa o senhor Carlos Cruz e os seus amigos advogados que são? Foi realmente «o terror das trêvas» (trêvas ou trevas? - o advogado Sá Fernandes tem alguns problemas de pronúncia!) o que se passou naquela dita conferência de imprensa! Quem é que está interessado na família solidária do senhor Carlos Cruz ( a ex-mulher, o enteado lá no Brasil, as filhas e mais a mulher)? Que o condenado e os seus advogados são muito amigos já se percebeu e isso não abona nada em favor da verdade nem da justiça!
  A minha indignação não pode ser maior em relação ao tempo de antena dado a estes três senhores! Para mim, como para Catalina Pestana, o processo Casa Pia chegou ao fim, felizmente. Que vão estrebuchar na prisão os condenados e não continuem a gastar o dinheiro nem o tempo dos Portugueses!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Bandeira azul na Ilha da Fuseta? E o lixo que todos os dias por lá se encontra?



   O civismo das pessoas é muito reduzido, o mar todos os dias traz ainda objectos e destroços das casas que levou e a limpeza da praia (dentro e fora das concessões) ou não se faz ou faz-se muito pouco. As pessoas querem é gozar a praia (ou lucrar com ela) e o lixo que se lixe!











    Esta última fotografia mostra o que recolhi durante um breve passeio.

   Afinal, está alguém interessado em salvar o planeta? Ou isso são só teorias?

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Livros de férias



  Poderá ser mais olhos que barriga, sobretudo para quem não lê depressa (divago muito enquanto leio) nem põe a leitura em primeiro lugar.
  Estes foram livros que fui adquirindo nos últimos meses e que só agora poderei ter mais tempo para ler. O livro de Mário de Carvalho, A arte de morrer longe, e o de Roberto Bolaño, Estrela Distante, estão a meio. Um bom homem é difícil de encontrar, de Flannery O'Connor, já está lido e Tudo o que sobe deve convergir, também de Flannery O´Connor, está a meio.
  Da Flannery O´Connor já posso falar. Não é por acaso que foi considerada a melhor escritora americana do século XX (New York Review of Books). É uma magnífica contadora de histórias. O leitor vai-se aproximando das personagens e das histórias irremediavelmente e, depois, encontrará sempre um final inesperado. Muitas vezes terrível como no sensacional conto «Um bom homem é difícil de encontrar». Gonçalo M. Tavares diz :«Apesar de ser muito duro e violento, é de uma violência que promove a lucidez.» E espanta e diverte também!
O tema dominante dos contos de Flannery O´Connor é a relação entre brancos e negros nos estados sulistas dos EUA. Mas não só. A América e os seus preconceitos e o ridículo da vida familiar da pequena e média burguesia surgem, nestes contos, sob um olhar incrível.
  
Talvez vá acrescentando este post à medida que as leituras se concretizem,