segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Clarice Lispector no CCB - leituras, conferência e filme A Hora da Estrela



  «Não li Clarice para a literatura, mas para a vida.», frase de António Calado, mas poderia ser minha. Eu li Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres e A Paixão Segundo G.H. quando tinha 20 anos e fiz desses livros, sobretudo do primeiro a minha bíblia. E comecei aí a saber melhor a pessoa que era e a atitude que me interessava ter perante a vida.
  Ontem, no CCB, teve lugar o DIA CLARICE LISPECTOR. Estava marcado na minha agenda. Foi a primeira vez que tive o prazer de, durante quatro horas, só ouvir ler e falar de Clarice Lispector e da sua obra. Infelizmente nem foram lidas passagens de Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, nem o conferencista Carlos Mendes de Sousa falou desta obra. Para mim, essa  é a obra que celebra o êxtase da vida e muito me faz lembrar Alberto Caeiro.
  Foi lida uma passagem de A Paixão Segundo G.H. e foram lidos os contos A Descoberta do Mundo ,  Preciosidade, O Búfalo, entre outros.
  Trancrevo eu algumas passagens de Uma  Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres:

  « (...) é que tudo o que existia, existia com uma precisão absoluta e no fundo o que ela terminasse por fazer ou não fazer não escaparia dessa precisão; aquilo que fosse do tamanho da cabeça de um alfinete, não transbordava nenhuma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete: tudo o que existia era de uma grande perfeição.»

«(...) uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida.»

«Nesta madrugada fresca foi ao terraço e refletindo um pouco chegou à assustadora certeza de que seus pensamentos eram tão sobrenaturais como uma história passada depois da morte. Ela simplesmente sentira, de súbito, que pensar não lhe era natural. Depois chegara à conclusão de que não tinha um dia-a-dia mas sim uma vida-a-vida.»

    Leiam este livro e os outros que estão agora editados pela Relógio d' Água.


sábado, 11 de dezembro de 2010

A carta de Liu Xiaobo lida em Oslo




O Ódio Corrói a Consciência e Sabedoria das Pessoas - Nobel da Paz - Liu Xiaobo


.by Citador on Friday, December 10, 2010 at 10:39am.


   Eu não tenho inimigos, nem odeio ninguém. Nem os polícias que me vigiaram, prenderam e me interrogaram, nem os advogados que me processaram, nem os juízes que me condenaram, são meus inimigos. Embora eu não possa aceitar a vigilância, prisão, processos ou condenação, respeito as suas profissões e as suas personalidades. O ódio corrói a consciência e sabedoria das pessoas; a mentalidade de hostilidade pode envenenar o espírito de uma nação, incitar a uma vida violenta e a conflitos de morte, destrói a tolerância e humanidade de uma sociedade, e bloqueia o progresso de uma nação na senda da liberdade e democracia.
  Contudo, eu tenho esperança de conseguir transcender as minhas vicissitudes pessoais na compreensão do desenvolvimento do estado e de mudanças na sociedade, e de denunciar a hostilidade do regime com a melhor das intenções, e de acabar com o ódio através do amor..
  Eu não me sinto culpado por seguir os meus direitos constitucionais e o direito de liberdade de expressão, e por exercer em pleno a minha responsabilidade social como cidadão chinês. Mesmo que esteja acusado por causa disso, não tenho queixas.
  A reforma política da China deve ser gradual, pacífica, ordenada e controlável, e deve ser interactiva, desde cima a baixo e de baixo a cima. Desta forma terá o custo mais baixo e conduzirá aos resultados mais eficazes. Eu conheço os princípios básicos das mudanças políticas, e que mudanças sociais controladas e feitas de forma ordeira são melhores que aquelas que são feitas de forma caótica e sem qualquer controle. Por isso oponho-me a sistemas de governo que sejam ditaduras ou monopólios. Isto não é incitar à subversão do poder do Estado. Oposição não é equivalente a subversão.

                                                      Liu Xiaobo


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

«Saí do comboio», de Álvaro de Campos

  

Saí do comboio,
Disse adeus ao companheiro de viagem,
Tínhamos estado dezoito horas juntos.
A conversa agradável,
A fraternidade da viagem,
Tive pena de sair do comboio, de o deixar.
Amigo casual cujo nome nunca soube.
Meus olhos, senti-os, marejaram-se de lágrimas...
Toda despedida é uma morte...
Sim, toda despedida é uma morte.
Nós, no comboio a que chamamos a vida
Somos todos casuais uns para os outros,
E temos todos pena quando por fim desembarcamos.

Tudo que é humano me comove, porque sou homem.
Tudo me comove, porque tenho,
Não uma semelhança com ideias ou doutrinas,
Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.

A criada que saiu com pena
A chorar de saudade
Da casa onde a não tratavam muito bem...

Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo,
Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração.

E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.


4/7/1934

Álvaro de Campos, Poesia, edição de Teresa Rita Lopes, Assírio & Alvim, 2002

  Esta poesia foi magnificamente dita («falada») por Elisa Lucinda, no RECITAL À BRASILEIRA, que teve lugar na Casa Fernando Pessoa, no dia 03-12-2010

sábado, 4 de dezembro de 2010

As inacreditáveis [novas novidades]

    Vivemos realmente tempos extraordinários. Diariamente, deparamo-nos com notícias inacreditáveis.
  Comecemos pelo preservativo na boca do Papa. Inesperadamente, surge a notícia de que o Papa Bento XVI aceitou o uso do preservativo e mais, aconselha-o mesmo em prol do amor. Espantámo-nos nós todos os que condenávamos a proibição do preservativo pela Igreja, a mais obsoleta caturrice, própria de uma Igreja medieval, e, para além do mais, atentatória da saúde pública e da vida humana, sobretudo desde que a sida se tornou uma ameaça nas relações amorosas. Mas falou o Papa (possivelmente para lançar fumo branco sobre os casos de pedofilia na Igreja) e, no momento seguinte, toda a Igreja, mesmo a mais conservadora, vem à ribalta dizer que pois, sempre foi essa a posição da Igreja, sempre se aconselhou o uso do preservativo para salvar o amor e patati, patatá... EXTRAORDINÁRIO!
  Notícias cá do país - a história da remodelação governamental. Começou com o ministro Luís Amado, passou para a deputada europeia Ana Gomes e, depois, críticos e políticos, todos a dar palpites. Todos, menos José Socrates e os seus «ecos». Para estes, vivemos sempre no País das Maravilhas. Mas José Manuel Júdice faz a proposta mais inacreditável - a formação de um governo de salvação nacional com todos os partidos com assento parlamentar. Boa! Esta gostava eu de ver!
  Voltando às notícias lá de fora. E que tal a guerra das Coreias e o açoite da China à Coreia do Norte? Pois assim é que se faz! Chama-se «infantil» ao governo de Pyong -Yang e assim se desanca psicologicamente uma potência nuclear. A China é que sabe. O pior é se o governo de Pyong -Yang é mesmo infantil e desata a brincar com os mísseis nucleares!
  Continuemos este jogo de ping-pong noticioso. Repararam no líder da bancada socialista, Francisco Assis a ameaçar demitir-se se os deputados do PS votassem a favor da proposta do PCP sobre a tributação dos dividendos das empresas públicas e publico-privadas? Os deputados do PS deveriam ter deixado o seu líder demitir-se e ter votado a proposta do PCP se, de facto, estão interessados em remediar a situação económica do país que o seu partido tão brilhantemente tem contribuído para aniquilar. Mas lá se acobardaram à disciplina partidária, com uma insólita excepção para confirmar a regra. Mas teve piada a aflição de Francisco Assis, não fosse levar tau-tau de José Sócrates.
   E ainda por cá. Ouviram aquela da criação de uma nova empresa pública para gerir ou supervisionar todas as empresas públicas e parcerias publico-privadas que navegam neste país? Não dá para acreditar! O ministro das finanças desvairou. É que o povo português fica mesmo arrepiado quando ouve uma coisa destas! As pessoas estão fartas de ouvir falar do esbanjamento e da corrupção que grassam nessas empresas e saber que o ministro Teixeira dos Santos vai criar mais uma, só para supervisionar as outras, realmente, só apetece perguntar se está a gozar com a malta. Até o CDS e o economista Nogueira Leite têm mais bom senso. Há no Ministério das Finanças gente qualificada para exercer essa importante função! Inacreditável!
  E só faltava a NASA vir dizer que descobrira vida extraterreste! Será que o governo dos Estados Unidos desorientado com as revelações do site WikiLeaks resolveu subornar a Nasa e pedir-lhe revelações extraordinárias para fazer esquecer as outras? Afinal a bactéria não era extraterrestre e foi mesmo encontrada num lago da Califórnia e isso já se sabia havia muito tempo!  De novo, só o pormenor do arsénio! (Poderá ser importante, não digo que não!) Mas, na verdade, que tempos inacreditáveis.

   

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Os miúdos de «A Rede Social», de David Fincher

(publico.pt)
   

   O mundo de Harvard (Outubro de 2003) em que vivem os miúdos do filme  A Rede Social, de David Fincher, é um mundo em que, paralelamente à inteligência, à competência técnica, aos rasgos geniais dos estudantes, às relações afectivas próprias da juventude, grassam a competição, o oportunismo, a vingança, a traição, a ganância, inerentes à sociedade capitalista norte-americana e, no fundo, aos vícios da humanidade desde que os homens vivem em sociedade.
  Mark Zuckerberg, um jovem inteligente de Harvard, sente-se humilhado porque a namorada, mais madura que ele, desfez o namoro, saturada do seu egotismo. A humilhação gera a raiva e a vontade de vingança e daí nasce a criação do site que irá dar origem ao Facebook.
  Na génese deste site está a vingança, a traição, a deslealdade, a exibição pública do que deveria ser privado, o bullying. E também um comportamento excessivamente machista, o gozo de exibir as fotografias das jovens estudantes da Universidade e de espalhar as suas imagens.
  E é assim que um site, em princípio com características pornográficas (porque exibe para gozo e possível «venda»), se vai transformar num sítio que espalha informações pessoais para relações sociais.
 
   Extrapolando para além do filme e falando já do Facebook, como todas as coisas do mundo, sabe-se como começa, mas não se sabe como acaba. E, penso, o SHARE vai, de facto, transformar o mundo. As relações pessoais que por lá se desenvolvem, ou não, são um facto secundário. O que é deveras importante é que através do Facebook se espalham ou podem espalhar a uma velocidade alucinante informações que podem ser preciosas (política, direitos humanos, eventos, saberes, opiniões, etc., etc.).

  Como já foi dito: SHARE OU NÃO, EIS A QUESTÃO!


Nota: O filme baseia-se no livro Milionários Acidentais, de Ben Mezrich , sobre Zuckerberg e o Facebook.


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Os epítetos do Dr. Jardim

  No jornal Expresso, de 13 de Novembro de 2010, Miguel Sousa Tavares no seu artigo «O Portugal Habitual», lançou uma explosão de epítetos ao madeirense Dr. Jardim, mais parecendo uma antecipação de um fogo de artifício epitético a deslumbrar a passagem do ano.
   Passo à compilação desses epítetos:
         
           Sua Alteza Atlântica
  
          Sua Alteza Insular

          Sua Alteza Querida

         Sua Exaltada Alteza

         Sua Alteza Revoltada

         Sua Educada Alteza

         Sua Roubada Alteza

         Sua Quase Africana Alteza

         Sua Patriótica Alteza


     Muito interessante o artigo! 

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Uma visita ao Oceanário - momentos calmos

   
   Aconselho uma visita ao Oceanário, no Parque das Nações em Lisboa, para, entre outras coisas, esquecer os problemas da dívida pública. De preferência com crianças interessadas e inteligentes.



















segunda-feira, 8 de novembro de 2010

«Confiança eterna?»

  Não existe confiança eterna em coisa nenhuma, quanto mais a hipotética «confiança eterna» que o líder da bancada parlamentar socialista Francisco Assis deseja para a confiança dos mercados internacionais na economia portuguesa.
 Com certeza que, quando Francisco Assis se referiu à «confiança externa», deverá ter sentido uma imensa vontade de fazer um jogo de palavras com «confiança eterna», mas «confiança eterna» na economia portuguesa só poderia ser uma paródia com a triste situação desta economia.
 Este episódio de que falo foi a última frase do depoimento para os media do líder socialista, após  a viabilização, na  Assembleia da República, do orçamento de estado para 2011. Talvez  fosse a emoção do momento, talvez a viabilização deste orçamento desse a este socialista a sensação momentânea de felicidade eterna...
  Mas «confiança eterna», quando se fala dos especuladores fanáticos dos mercados internacionais?  Jerónimo de Sousa tem dogmas bastante mais sensatos: «Os especuladores especulam! Aos vampiros apenas cabe sugar o sangue!»
  E é no mundo dos especuladores-vampiros que este país e esta Europa se movem!

  


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Sócrates na pele de um padre evangelista

  Sócrates decidiu apelar à esperança no PS da mesma forma propagandística e falsamente convicta que usam habitualmente os padres evangelistas.
  Na sua frente, os militantes de Braga pareceram-me estáticos e indiferentes como os carneiros de um rebanho que não têm alternativa senão tragar a erva do campo a que o pastor os conduziu.
  Vi pela televisão e fiquei impressionada! Sócrates é, de facto, um actor espectacular e representa excelentemente aquele papel de padre evangélico. O problema é que o povo se sente à beira de um abismo e todo aquele ênfase de esperança e fé lembra já uma vida extraterrena e mais parece um rito de extrema-unção.
  Não tenho tido vontade alguma de falar aqui do orçamento nem das peripécias rocambolescas que o têm envolvido. (Os dois grupos -  PS e PSD -, liderados por Eduardo Catroga e Teixeira dos Santos, lembram realmente os tempos da guerra-fria com Brejniev e Kissinger a discutir as armas nucleares (comparação do comentarista Luís Delgado), ou, talvez melhor, dois grupos da máfia siciliana negociando a extorsão da «massa» aos pequenos comerciantes e ao povo.)
  O desânimo é grande, a descrença maior ainda! Não há palavras de esperança que valham por mais enfáticas que Sócrates as grite!
  Que tal fazer frente à Europa? À Merkel, ao Sarkozy? O ministro português dos negócios estrangeiros já começou e os franceses não estão a brincar...

 

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Antestreias da 11ª Festa do Cinema Francês - enquanto a crise ferve no caldeirão!


    A 11ª Festa do Cinema Francês tem vindo a apresentar filmes (antestreias) de indiscutível qualidade. E se as distribuidoras portuguesas enchem as salas de cinema portuguesas de filmes americanos,  pelo lucro seguro que lhes darão, vale a pena ir às festas de cinema onde se podem ver muito bons filmes a que posteriormente poderá ser difícil o acesso.
  

  Sandrine Bonnaire é a madrinha da festa. Esteve presente no filme Joueuse, em que é a actriz principal, uma mulher a dias que se torna uma jogadora de xadrez, notável vencedora de torneios, ultrapassando as limitações da sua situação económica, social e familiar. Excelente filme e excelentes paisagens da Córsega. E esteve também no filme Elle s'appelle Sabine,  filme que realizou, sobre a situação em que vive a sua irmã Sabine, uma jovem autista.

    Outros filmes relevantes: Le Concert, de Radu Mihaileanu, uma comédia que penetra a sensibilidade dos mais empertigados, em que a Orquestra Bolshoi (formada por antigos músicos escorraçados da companhia por Brejnev por serem judeus ou por terem tomado posições em sua defesa, músicos que já não tocavam juntos havia trinta anos) vai a Paris, ao Théâtre du Chatelet, tocar Tchaikovsky e deslumbra os parisienses e a nós, obviamente.
    Le Refuge, de François Ozon, uma bela história sobre situações de droga, de maternidade pouco desejada e de reencontro de alguma paz interior.
    Des Hommes et des Dieux, de Xavier Beauvois, sobre a vivência de uma comunidade de oito monges franceses na Argélia, nos anos em que os fundamentalistas islâmicos cometiam as maiores atrocidades sobre aldeãos, estrangeiros, etc., e espalhavam o terror pelo país.

   E muitos mais filmes há ainda para ver!

   

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

«Há um cão vadio...» de Almada Negreiros

  Ontem, na Praça do Município, em Lisboa, a Républica, personagem da encenação teatral do grupo O Bando, declamou uma montagem de textos de autores portugueses.
  De Almada Negreiros, o texto seleccionado foi este:

  

  Não achas, Mãe? Por exemplo. Há um cão vadio, sujo e com fome, cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas.
 Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si - não saber cuidar de si é ser cão.
  Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono de mim, para os que me vissem dissessem: Que bem que aquele soube cuidar de si!

  Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: Olha uma árvore! quando há uma árvore. Assim, inteiro; sem adjectivos, só de uma peça: Um homem!


            De A invenção do Dia Claro, 1921