Por onde andará a alegria neste filme? Na verdade, só por ironia este título pode ter sido dado a este filme.
A minha alegria (My joy), de Sergei Loznitsa, mostra-nos uma Rússia, pós segunda grande guerra, miserável, corrupta, violenta, desprovida de sentimentos, de regras morais, de humanidade, onde os agentes da autoridade são tão desprezíveis e pervertidos como os mais arrepiantes vagabundos.
O camionista Georgy viaja pelo país, observando, movimentando-se com cautela, procurando não alinhar na exploração humana que a cada paragem se lhe apresenta. Inútil! Aquele país dos sovietes está irremediavelmente perdido!
Esta visão terrivelmente negativa de Loznitsa contrasta com a beleza da fotografia que nos oferece. O filme retém-se em muitas cenas, pondo em evidência um talento fotográfico assinalável.
As minhas expectativas em relação a este filme eram, em boa verdade, muito diferentes da realidade com que me deparei.
No último comício de Manuel Alegre, no Coliseu dos Recreios em Lisboa, Francisco Louçã lembrou o poema (história) da nêspera de Mário-Henrique Leiria para apelar ao voto, ao empenhamento político, à intervenção na vida política do país. Aqueles que ontem se abstiveram de ir votar e os que votaram em Cavaco Silva vão ficar e, infelizmente, obrigar os outros portugueses a ficar como a nêspera, deitada, muito calada a ver o que vai acontecer. E depois, obviamente, a VELHA, zás, vai papá-la!!
Rifão quotidiano
Uma nêspera estava na cama deitada muito calada a ver o que acontecia
chegou a Velha e disse olha uma nêspera e zás comeu-a
é o que acontece às nêsperas que ficam deitadas caladas a esperar o que acontece
Valeu a pena ver, ontem, véspera de eleições, esta ópera de Mazzoni. Foram cinco horas passadas com o maior prazer na segunda plateia do Grande Auditório do CCB. E vale a pena ler o artigo de Pedro Boléo, abaixo indicado.
Leiam o artigo sobre esta ópera de 1755 e vejam o vídeo incorporado!
Ontem à tarde no Chiado, gente de Lisboa e muitos apoiantes espalharam rosas e desfilaram com Manuel Alegre, mostrando alegria e vontade de mudança e progresso nas eleições presidenciais de 23 de Janeiro.
Manuel Alegre: Ninguém nos impõe a História, ninguém nos impõe o destino; somos nós que vamos votar, somos nós que vamos decidir!
Como há cinco anos atrás, iremos votar Manuel Alegre, e, agora, passar à segunda volta das eleições!
Imagine there's no heaven,
It's easy if you try,
No hell below us,
Above us only sky,
Imagine all the people
living for today...
Imagine there's no countries,
It is'nt hard to do,
Nothing to kill or die for,
No religion too,
Imagine all the people
living life in peace...
Imagine no possessions,
I wonder if you can,
No need for greed or hunger,
A brotherhood of men,
imagine all the people
Sharing all the world...
You may say I'm a dreamer,
but Im not the only one,
I hope some day you'll join us,
And the world will live as one
Imagina que não existe paraíso,
É fácil se tentares,
Nenhum inferno debaixo de nós,
Sobre nós apenas o firmamento.
Imagina todas as pessoas
Vivendo apenas o presente...
Imagina que não existem países,
Não é difícil imaginá-lo,
Nada para matar ou para morrer,
Também nenhuma religião,
Imagina todas as pessoas
Vivendo a vida em paz...
Imagina que não há poderes,
Pergunto-me se conseguirás, Não existe ganância nem fome,
Apenas a fraternidade entre os homens,
Imagina todas as pessoas
Compartilhando o mundo todo.
Podes dizer que sou um sonhador,
Mas não sou o único,
Espero que algum dia tu te juntes a nós,
E o mundo será apenas um.
Nunca se viu uma campanha presidencial tão esquisita como esta - as pessoas não estão, de facto, disponíveis emocionalmente para se envolverem na defesa e propaganda dos candidatos que apoiam.
As ameaças económicas oprimem e desviam a atenção: o leilão da dívida pública, a entrada ou não do FMI, o recurso ao Fundo Europeu, os cortes nos salários, a subida dos impostos, ..., vive-se uma situação inquietante, stressante, que afasta os eleitores e os próprios candidatos presidenciais de uma defesa lúcida e tranquila das suas ideias e programas eleitorais. As intervenções dos candidatos são, fundamentalmente, comentários às vitórias ou derrotas face aos carrascos internacionais.
A estranha sobrevalorização das acções do candidato-presidente Cavaco Silva no BPN (charco onde muito se afundou este país), as tentativas ridículas de meter Manuel Alegre na mesma onda de corrupção, as cassetes de Francisco Lopes, a figura filantrópica de Fernando Nobre, o folclore de Manuel Coelho e o regionalismo de Defensor Moura (inteligente, é verdade) não constroem um panorama eleitoral credível e convidativo.
E, sobretudo, os Portugueses andam tensos demais, entre dias «decisivos» ou «não decisivos», e, apesar da inverosimilhança da proposta de Manuel Alegre de suspender a campanha, esta é uma campanha pouco verosímil.
Ver o filme Tulpan, de Sergey Dvortsevoy, confronta-nos com o dia-a-dia de uma família nómada nas estepes do Cazaquistão.
Ali, onde os recursos se reduzem às ovelhas, a grandeza do ser humano apresenta-se despojada das vestes artificiais da civilização contemporânea.
A família de Asa, o marinheiro que acabara de prestar serviço militar no exército russo, vive numa tenda nómada sem móveis (mesas, cadeiras, camas,...) sem fogões, frigoríficos, televisões, mas incute nos filhos regras de educação (não se brinca nem canta à mesa) e o relacionamento entre os seus membros caracteriza-se pelo máximo respeito moral e pela total preservação da dignidade pessoal (embora partilhem dia e noite o mesmo espaço). O afecto saudável, o carinho, a brincadeira, a alegria do canto, são os elos que unem a família e que a sustentam.
O marinheiro Asa deseja Tulpan, a jovem casadoira que poderia dar-lhe uma família, o direito a um rebanho e ao trabalho de pastor.
A estepe, as ovelhas, o difícil parto da ovelha praticado por Asa, o amor na sua expressão mais pura, a brincadeira do menino com o pau que faz de cavalo ou com o cágado que faz de automóvel, o canto infatigável da menina, os camelos, as ovelhas, o cão, a imensidão desértica da estepe, a poeira, o pastor, o veterinário - este filme faz-nos participar na acção, temos vontade de ajudar no parto da ovelha, enchemo-nos de poeira, rimos com as brincadeiras.
Vermos este filme torna-nos mais saudáveis e humanos.
Terrorismos, calamidades ambientais, devastação económica e financeira, estes foram os três grandes pilares de uma década de instabilidades, terrores, morticínios, misérias e frustrações.
O primeiro grande impacto foi o ataque terrorista de 11 de Setembro de 2001 às Torres Gémeas em Nova Yorque. Morreram 2.996 pessoas das mais diversas nacionalidades, gente que trabalhava nessas Torres, muitos dos bombeiros que acorreram a prestar auxílio, os 19 sequestradores, os passageiros dos aviões, etc.
Bin Laden e a Al-Qaeda vestiram a pele dos monstros terroristas e os EUA apressaram-se a responder com invasões bélicas no Afeganistão e no Iraque. O mundo inteiro assistiu à guerra em directo pelos meios de comunicação social, testemunhou os bombardeamentos, a destruição, a carnificina.
No dia 11 de Março de 2004, novo ataque terrorista da Al-Qaeda, em Madrid, nas estações de metro de Atocha, El Pozo e Santa Engrácia. Mais de 190 pessoas mortas e muitos sinistrados.
(World Press Photo 2004)
A 26 de Dezembro de 2004, um Tsunami devastou as terras banhadas pelo Oceano Índico - Indonésia, Tailândia,Sri Lanka, Somália, Maldivas, Seychelles, etc. - com efeitos destruidores inimagináveis, um total de cerca de 175 mil mortos.
Em Janeiro de 2009, o exército israelita invadiu por terra a Faixa de Gaza arrasando e chacinando tudo o que se lhe deparava pela frente.Terão morrido 1.314 palestinianos.
(publico.pt)
No dia 14 de Janeiro de 2010, um forte terramoto assolou o Haiti, transformando este país num amontoado de escombros, mortos e desalojados. Estima-se que tenham morrido cerca de 200 mil pessoas.
A fraude e a corrupção económica e financeira mostraram, no final de 2008, a sua face maquiavélica. A especulação imibiliária, os offshores (paraísos fiscais), os investimentos tóxicos, os ganhos ilícitos, todos os Madoffs das sociedades capitalistas e que há muito enriqueciam, criaram o caos económico, levaram países à bancarrota, disseminaram o desemprego e a miséria.
Vivemos, na verdade, uma década vertiginosa e, por vezes, com características apocalípticas.
Lembrámo-nos, amiúde, das profecias de Nostradamus. E tememos a sua concretização.
Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia. Era gente a correr pela música acima. Uma onda uma festa. Palavras a saltar.
Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima. Guitarras guitarras. Ou talvez mar. E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia. No teu ritmo nos teus ritos. No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia). Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos. E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia. No teu sol acontecia.
Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia). Todo o tempo num só tempo: andamento de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia. Na cidade lavada chuva. Em cada curva acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva na cidade agitada pelo vento.
Natal Natal (diziam). E acontecia. Como se fosse na palavra a rosa brava acontecia. E era Dezembro que floria. Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava. E era na lava a rosa e a palavra. Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia
O projecto CIN RE-MAKE'10, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, promoveu a recuperação de alguns muros da cidade. José Luís Peixoto participou neste projecto de recuperação urbana com textos poéticos.
Eu e tu, Lisboa. Eu, feito de praças, avenidas, becos, escadinhas, e tu, feita de esperança, olhos a brilhar.Às vezes, quase acredito que és demasiado nova para mim mas, depois, falas-me daquilo que aprendeste e tenho de abraçar-te. Talvez assim nos misturemos mais ainda.
Em certos instantes, como agora, és uma sombra feita de vozes de crianças e jardins. Respiro-te, Lisboa, e peço-te que, por favor
não pares de me seguir.
A cor dos teus olhos. Lisboa acorda de manhã com o céu. Eu e um exército de irmãos somos a ponta dos teus dedos. Connosco, tocas o dia e, depois para te aconchegares, estendes o entardecer sobre ti.
Nasceste líquida, Lisboa. Ainda hoje há uma parte do silêncio dessa hora que escorre por este tempo. A tua idade é feita de vidro. Nos seus muros transparentes, misturas o rio com o oceano. Ainda hoje, fonte, continuas a nascer.
Abres o livro onde está escrita a nossa história. Aqueles que o lerem serão capazes de acreditar que nunca existimos,que nascemos da imaginação de um escritor ou de uma cidade. Sorrimos perante essa ideia, Lisboa. Temos lábios. Utilizamo-los para beijar-nos.
De onde chegas,
Lisboa? Cheiras a Brasil
e a Luanda, cheiras
a música e a chá.
Na praça, os pombos
são o contrário
de uma explosão,
trazem pedaços de ti,
devolvem o céu que
emprestaste ao mundo.
Sentas-te num banco
de jardim e não
esperas. Sento-me
ao teu lado, Lisboa.
Podíamos perguntar-
nos onde está a noite
quando é dia, mas não
o fazemos. Sabemos
que a noite está sentada
mais adiante, noutro
banco de jardim.
Conversamos com
ela em pensamento.
Procurem estes muros na Rua da Imprensa à Estrela, na Avenida de Ceuta e na Rua José Gomes Ferreira.
Os muros foram imaginados e pintados por alunos do IADE, ETIC, Faculdade de Arquitectura de Lisboa, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Universidade Católica do Porto e Escola Superior Artística do Porto.
«Não li Clarice para a literatura, mas para a vida.», frase de António Calado, mas poderia ser minha. Eu li Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres e A Paixão Segundo G.H. quando tinha 20 anos e fiz desses livros, sobretudo do primeiro a minha bíblia. E comecei aí a saber melhor a pessoa que era e a atitude que me interessava ter perante a vida. Ontem, no CCB, teve lugar o DIA CLARICE LISPECTOR. Estava marcado na minha agenda. Foi a primeira vez que tive o prazer de, durante quatro horas, só ouvir ler e falar de Clarice Lispector e da sua obra. Infelizmente nem foram lidas passagens de Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, nem o conferencista Carlos Mendes de Sousa falou desta obra. Para mim, essa é a obra que celebra o êxtase da vida e muito me faz lembrar Alberto Caeiro. Foi lida uma passagem de A Paixão Segundo G.H. e foram lidos os contos A Descoberta do Mundo , Preciosidade, O Búfalo, entre outros. Trancrevo eu algumas passagens de Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres:
« (...) é que tudo o que existia, existia com uma precisão absoluta e no fundo o que ela terminasse por fazer ou não fazer não escaparia dessa precisão; aquilo que fosse do tamanho da cabeça de um alfinete, não transbordava nenhuma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete: tudo o que existia era de uma grande perfeição.»
«(...) uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida.»
«Nesta madrugada fresca foi ao terraço e refletindo um pouco chegou à assustadora certeza de que seus pensamentos eram tão sobrenaturais como uma história passada depois da morte. Ela simplesmente sentira, de súbito, que pensar não lhe era natural. Depois chegara à conclusão de que não tinha um dia-a-dia mas sim uma vida-a-vida.»
Leiam este livro e os outros que estão agora editados pela Relógio d' Água.